Lúcifer no trono.
A moralidade de cada ação, do ponto de vista do utilitarismo, muda com a existência confirmada de vida após a morte com inferno e/ou paraíso. Isso vale tanto para a série quanto para religiões em que existe inferno eterno e regras que mandem a maioria das pessoas para lá. Para a deontologia, as regras são fixas e não mudam.
Mas em cenários radicalmente diferentes, as regras da deontologia param de fazer sentido. Por exemplo, matar é a violação máxima da deontologia, mas se matar significar mandar a pessoa para o paraíso, matar significa fazer um bem à pessoa. Para religiões onde o local da vida após a morte é determinado pela bondade ou maldade da pessoa, matar uma pessoa má seria pior do que matar uma pessoa boa.
DEUS
Deus chega para separar a briga de seus filhos, mas nunca disse a eles que deveriam ajudar as almas no inferno.
Na série Lúcifer, o que faz com que uma pessoa vá para o inferno é a existência do sentimento de culpa ao morrer. Por exemplo, Dan morreu se sentido culpado por não ser um pai bom o bastante para sua filha e foi para o inferno. Se Deus criou o inferno e suas regras, ele é o maior vilão da história. Ele nem sequer disse a Lúcifer nem a ninguém que era possível para uma alma do inferno alcançar o céu. Mais precisamente, é um anti-vilão, por também ter criado o paraíso e as coisas boas da Terra.
Ainda assim, o Deus dessa série tem um dos saldos utilitários mais negativos da ficção. Talvez maior até do que o do Thanos. Devo enfatizar que o utilitarismo julga a todos com os mesmos critérios, não importa que sejam deuses. Justificativas como "porque Deus quer" não têm valor no utilitarismo. O que importa para o utilitarismo é o sofrimento das vítimas. Portanto, toda religião que tem sofrimento eterno no inferno e tem regras que mandariam a maioria das pessoas para lá, tem deuses que são vilões ou anti-vilões.
A PRIMEIRA VÍTIMA
Abel é a primeira vítima de assassinato, e o primeiro humano a morrer. Na série, ele foi para o inferno. Os demônios praticaram suas técnicas de tortura nele. Enquanto isso, Caim, o assassino, recebeu uma marca e foi "condenado" a andar pela Terra. Ele era imortal. Mas ironicamente queria morrer, ou achava que queria. O inferno é muito pior que a terra em todos os sentidos. Cada segundo na Terra é 1 ano no inferno.
A cada ano na Terra, as pessoas no inferno sofriam por mais de 300 milhões de anos no inferno. Isso é mais tempo do que o tempo entre os dias atuais e o SURGIMENTO DOS DINOSSAUROS. Não da extinção. Do surgimento. Estima-se que cerca de 100 bilhões de humanos já viveram e morreram na Terra. Se metade dessas pessoas foi para o inferno, são 50 bilhões de pessoas sofrendo o equivalente a mais de 300 milhões de anos de tortura para cada ano terrestre.
Não sei se Abel estava lá há cerca de 6 mil anos terrestres, que é o tempo que alguns religiosos dão para a data de criação de Adão e Eva, ou se estava lá há cerca de 200 mil anos, que é o tempo que os cientistas estimam que viveram Adão e Eva genéticos. Durante todo esse tempo, Abel era morto repetidamente no inferno. Inclusive, quando é trazido de volta para a Terra, Abel implora para que Caim o mate rápido, o que significa que nem sempre as mortes eram rápidas.
A MATEMÁTICA INFERNAL
Consegue calcular o quanto de sofrimento Abel acumulou em todos esses anos? 1 segundo = 1 ano no inferno. Então 1 ano na Terra = 365 x 24= 8760h, 8760x 60= 525.600 minuto, 525600 x 60=346.896.000 segundos. Portanto, 1 ano na Terra = a 346.896.000 anos no inferno. Se se passaram 6.000 anos na Terra desde que Abel foi para o inferno, nesse tempo ele passou 2.081.376.000.000 de anos no inferno sendo torturado. E já que Abel foi a primeira vítima de assassinato, ele não tinha matado ninguém.
O DIABO E SEU DEMÔNIO
Lúcifer ordena que Maze torture um homem.
Lúcifer e Maze não parecem incomodados com isso. Lúcifer tem poder para pausar e/ou modificar o ciclo de tortura de alguém no inferno. Na verdade, diversas vezes durante a série ele manda Maze torturar pessoas. Lúcifer disse diversas vezes que ele delegava tarefas no inferno, inclusive enquanto mandava Maze torturar os outros, então alguma participação ele tem sim nas torturas, e o saldo negativo disso é absurdo. Maze, inclusive, é chamada de a torturadora mais brutal do inferno. E Lúcifer mandou Maze torturar a própria mãe dele quando ela foi mandada para o inferno. Torturar pessoas por trilhões de anos é uma atrocidade pior do que qualquer crime já cometido por qualquer ser humano.
EVA
Maze tortura Adão, Eva assiste.
Eva namorou Lúcifer e no final se casou com Maze. Ela se casou com a mulher que torturou seu filho por trilhões de anos. A Eva parece não ter muita noção de como é o inferno. Mas ela já esteve no céu, então ela sabe que Abel não está lá. Eva e Maze são anti vilãs, pois demonstram se importar com certas pessoas (algumas características deontológicas positivas), mesmo com saldo utilitário negativo.
Eva poderia pedir a Lúcifer que fosse ao inferno garantir que Abel estava bem, já que ela não gostava do Caim por ter matado o "gentil e doce" Abel dela. Lúcifer além de permitir/ participar da tortura de Abel, também matou Caim e o mandou para o inferno. Eva também matou o padre William Kinsley. Sim, ele queria matá-la, mas legítima defesa não é um bom argumento quando você já morreu, foi para o céu e voltou porque achou chato. Kinsley foi para o inferno, um ambiente de tortura.
Eva também manda o padre Kinsley falar para os demônios do inferno virem atrás do rei deles. O demônio Dromos possuiu o corpo de Kinsley, e quando Lúcifer diz que não vai voltar para o inferno, ele mata pessoas para mandá-las para o inferno, e assim outros demônios possuíram seus corpos e mataram ainda mais pessoas que foram para o inferno. Por isso Lúcifer volta ao inferno por 2 meses terrestres.
O DIABO É ANTI-HERÓI?
Lúcifer manda seus demônios de volta para o inferno.
Lúcifer só se torna anti-herói no fim da quarta temporada, pois é uma alternativa melhor para o cargo de rei do inferno do que Dromos, que queria fazer o filho de Amenadiel de marionete. Se a série terminasse na terceira temporada, quando foi cancelada, Lúcifer terminaria como anti-vilão. A Netflix salvou o diabo de ser anti-vilão.
O Dan era ex-marido da Chloe e pai da filha dela, então Lúcifer ele ordenou que os demônios não o torturassem e o deixou fora do loop infernal. Mas ainda deixou todos os outros sendo torturados no loop infernal. No final, Lúcifer decide ajudar todas as almas do inferno a superarem suas culpas e irem para o paraíso, mas as únicas pessoas que conseguiram foram o Dan e Lee Garner. Não se sabe se Lúcifer teve sucesso com outros ou não.
SOFRIMENTO INÚTIL
Dan vai para o céu.
Maze diz que o loop infernal dá pistas do que Dan precisa saber para ir para o céu. Mas no fim, ele possui o corpo do assassino dele, fala com a filha dele, e ela diz que ele foi um ótimo pai. Então a culpa que fez ele ir para o inferno tinha sido a culpa de não ter sido um bom pai. Depois disso, Dan foi para o paraíso. Um ponto importante é que Dan não passou pelo loop infernal, mas conseguiu superar a culpa e ir para o paraíso. Isso prova que o loop infernal não é necessário para ir para o paraíso, e Abel foi morto repetidas vezes por trilhões de anos sem nenhum benefício para ninguém.
Tanto Abel quanto Lee Garner têm o loop infernal de serem mortos repetidamente. Malcom Graham ficou sem água, comida, sem nenhuma forma de entretenimento, e quando Amenadiel trouxe ele de volta para a Terra, ele estava traumatizado. Antes de ele morrer, a família dele estava chorando por ele estar em coma e ter os aparelhos desligados. Mas quando ele foi revivido, pouco tempo depois a esposa dele estava querendo mata-lo caso ele voltasse para casa. Ele também mata várias pessoas.
Embora já fosse corrupto, Malcom não era um assassino em série. Apenas Lee Garner conseguiu sair do inferno através do loop infernal. Isso prova que os loops infernais são extremamente ineficientes em curar pessoas, podem na verdade traumatiza-las e deixa-las piores, e têm um saldo utilitário extremamente negativo.
A ESCADA PARA O CÉU
A fandom wiki de Lúcifer diz que Abel foi para o céu quando morreu pela segunda vez. Charlotte Richard também foi para o inferno quando a deusa possuiu o corpo dela, mas foi para o céu quando morreu. Eu não vi confirmação na própria série de que Abel foi para o céu depois que Lúcifer o trouxe do inferno para a Terra, mas se isso for verdade, isso reforça ainda mais que trazer almas do inferno para a terra é o método mais eficiente de fazê-las alcançar o paraíso.
CHLOE
Chloe teve um papel importante na evolução moral de Lúcifer, mas como matou pessoas que confirmadamente foram para o inferno, como Vincent e Malcom, ela teria que ter um benefício comprovado maior para compensar o sofrimento de quem ela mandou para o inferno. Ela era investigadora de assassinatos, prendeu muitos assassinos, e os próprios caras que ela matou também eram assassinos.
Chloe mata Vincent.
O que poderia salvar Chloe de ser anti-vilã é o fato de que as potenciais vítimas futuras de Vincent e Malcom, por exemplo, poderiam também ir para o inferno mais cedo por causa deles. Entretanto, se eles matassem suas vítimas antes de fazer algo que as deixasse culpadas, eles poderiam paradoxalmente salvá-las do inferno. Nesse sistema, um assassino pode ser uma faca de dois gumes.
Mesmo que eles fossem para o inferno depois de morrer naturalmente após talvez uns 30 anos, essa perda de 30 anos ainda significou bilhões de anos a mais no inferno para eles. Se o tempo a mais no inferno não ajuda a ir para o céu mais rápido, essa perda de vida significa apenas sofrimento a mais.
Quando Chloe vai para o inferno após morrer, Lúcifer está fazendo uma espécie de terapia em grupo com Reese, o ex-marido da Linda, Vincent, o assassino do Dan, mais uma mulher desconhecida. Se Lúcifer prioriza as almas que ele conheceu na Terra, e isso é mostrado, a eficiência desse método para ajudar almas a ir para o céu é baixa, já que se passaram 40 anos na Terra e bilhões de anos no inferno desde que Lúcifer decidiu ajudar as almas.
Encontro romântico? Aqui começa uma eternidade de dependência.
O benefício comprovado que conta com a participação de Chloe é o fato de Lúcifer pelo menos pausar os loops temporais de pelo menos 3 pessoas por vez para a terapia. Se Lúcifer passar 12h por dia infernal naquelas sessões de terapia, isso evita a tortura no loop infernal daquelas pessoas específicas. Inclusive, aparentemente servem donuts lá. Se Lúcifer passou bilhões de anos fazendo isso, ele também poupou bilhões de anos em dor.
Um ponto importante é que o utilitarismo dá mais peso a consequências do futuro próximo e menos peso a consequências do futuro distante. Mas uma barreira importante para a extensão do prazo para as consequências é o tempo de vida das pessoas atuais. Você não pode sacrificar pessoas existentes hoje para beneficiar pessoas potenciais no futuro.
Em um mundo onde as pessoas vivem eternamente no céu e/ou no inferno, a vida na Terra é só uma sala de triagem inicial para saber onde essa pessoa vai passar a eternidade, e esse limite para de fazer sentido. O pós vida é onde 99,9999999% da experiência consciente acontece. Para as cerca de 100 bilhões de pessoas mortas no céu e no inferno, a vida na Terra seria como uma memória muito distante da infância. Portanto, se Lúcifer continuar fazendo terapia com as almas do inferno para que elas alcancem o céu, a longo prazo, o saldo utilitário de Chloe tende a ficar positivo.
No final, é muito difícil de acreditar que Chloe seria feliz passando a eternidade no inferno com Lúcifer. O tempo que eles passaram juntos na Terra foi um piscar de olhos diante do tempo que ele passou no inferno. Quando eles se reencontram no inferno, parecem velhos amigos se reencontrando, não dois apaixonados. No inferno, Chloe dependeria totalmente dele. Ela não tinha amigos lá. E Lúcifer já tinha tentado fazer do inferno um lugar melhor para Dan, mas ele só ficava entediado o tempo todo. Simplesmente não tinha muito o que fazer lá.
Lúcifer tira Chloe do paraíso.
A proporção entre o tempo de vida na Terra e o tempo subjetivo no pós-vida também muda completamente a moralidade do ato de Lúcifer ir buscar Chloe no paraíso quando ela morreu a primeira vez. Chloe estava feliz com o pai dela no paraíso. E nós sabemos o quanto a morte do pai dela foi impactante para ela. Quando morreu pela segunda vez, ela foi para o inferno, e por mais que ela goste do Lúcifer, ser totalmente dependente de alguém é uma péssima idéia. Isso faz com que o “resgate” de Chloe do paraíso seja um ato egoísta, não um ato heroico como inicialmente parecia.
Eles nem ao menos moraram juntos na Terra. Isso seria crucial para que ela pudesse fazer uma decisão tão importante quanto passar os próximos trilhões de anos no inferno. Lúcifer a abandonou e voltou para o inferno pouco tempo depois porque a filha deles pediu. Para Lúcifer, o inferno pode ser melhor com Chloe lá. Entretanto, se Lúcifer decidir visitar a Terra por um dia sequer, ela vai ficar sozinha no inferno por milhares de anos.
A HEROÍNA QUASE PURA
Quem tem saldo utilitário muito positivo é a terapeuta Linda Martin. Ela também tem participação importante na mudança de comportamento de Lúcifer, inclusive inspirando as sessões de terapia que Lúcifer faz no inferno. Mas sem o saldo utilitário massivamente negativo de mandar alguém para o inferno.

Análise bastante complexa. Sendo um segundo na terra equivalente a uma ano no inferno é terrível imaginar o quanto deve ser terrível o looping infernal. E inaceitável Chloe deixar o paraíso para viver com Lúcifer no inferno, visto que se ele resolver fazer uma visita à terra ela ficará sozinha por muitos anos. É possível constatar facilmente os traços de egoísmo em muitas ações de Lúcifer em relação à Chloe, apesar de afirmar amá-la.
ResponderExcluirPois é, trataram a Chloe como um simples troféu para o Lúcifer, e não como uma personagem com seus próprios interesses.
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