Quando eu era criança, vi o trailer de um filme cheio de efeitos especiais que iria passar no SBT. O filme foi anunciado como um filme de fantasia. Entretanto, o filme (na verdade uma minissérie editada), era sobre um rei que ao ser traído pela esposa decide matá-la, se casar com uma mulher toda noite e matá-la no dia seguinte. Isso deveria ser suficiente para tirar qualquer possibilidade de redenção para esse rei.
A HEROÍNA
Uma mulher decide se voluntariar para casar com o rei e salvar as outras. Essa mulher é Sherazade. Ela consegue adiar a própria execução por mil e uma noites ao contar histórias e convencer o rei a não a matar para saber o que ia acontecer no final. Até que ele decide poupá-la definitivamente e eles têm filhos. O filme trata isso como um final feliz. Mas deveria horrorizar qualquer pessoa.
O COMPLETO MONSTRO
O rei Shahryar é um assassino e estuprador sistemático. As mulheres não podiam recusar o pedido de casamento dele, que era uma sentença de estupro e morte. Sherazade se oferece, mas relações sexuais sob grave ameaça também é estupro. E casar, estuprar e matar outras mulheres é uma grave ameaça. As outras mulheres são figurantes no filme, mas provavelmente eram amigas e até parentes de Sherazade.
Sherazade podia se recusar ter relações sexuais? Não, isso seria morte certa na manhã seguinte. Ela contava as histórias enquanto eles estavam na cama, o que sugere que as relações sexuais já tinham ocorrido. E os filhos são provas dos estupros.
LEI X MORAL
Alguns podem argumentar que qualquer relação sexual dentro do casamento naquela época e naquela cultura não poderia ser considerada estupro. Mas as leis daquele reino eram feitas por um serial killer de mulheres. Ele era o rei. Ele era a lei. Basicamente, ele poderia fazer o que quisesse, mas certas ações não deixam de ser consideradas erradas por estarem tecnicamente dentro da lei local. As vítimas não deixam de sofrer. As famílias não deixam de sofrer.
As leis justas proíbem certas ações por serem moralmente erradas e causarem sofrimento. A ilegalidade dos atos não os torna errados. A legalidade dos atos não os torna certos. A moralidade ou não de um ato vem antes da lei. As leis justas são ferramentas para impedir atos imorais.
FILOSOFIAS MORAIS
Para o utilitarismo, a moralidade ou imoralidade de uma ação depende de quanto sofrimento e de quanta felicidade essa ação causa. Para a deontologia, as regras são fixas e independem das consequências. As filosofias éticas não mudam de acordo com o local nem com a época. O rei Shahryar pode mudar as leis para fazer o que quiser, mas ambas as filosofias éticas o condenam. Portanto, ele é um vilão puro. Sherazade arriscou sua vida para salvar pelo menos 1001 mulheres, é perfeita pela deontologia e tem saldo utilitário muito positivo. Portanto, ela é uma heroína pura.
⚖️ GLOSSÁRIO DO TRIBUNAL UTILITARISTA
• VILÃO PURO: Age por egoísmo, prazer ou orgulho (Intenção Maligna) e gera um saldo de dor e morte (Resultado Negativo).
Exemplo: Rei Shahryar (Mata por ego e medo de traição).
• HEROÍNA/HERÓI PURO: Age por dever e altruísmo (Intenção Nobre) e gera um saldo de bem-estar ou vidas salvas (Resultado Positivo).
Exemplo: Sherazade (Arrisca-se para salvar 1001 mulheres).
• ANTI-HERÓI: Aquele que, embora use métodos violentos ou questionáveis, gera um saldo utilitário positivo para a sociedade no longo prazo.
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• ANTI-VILÃO: Aquele que possui uma intenção nobre ou altruísta, mas cujas ações resultam em um saldo utilitário negativo ou falham em gerar um benefício coletivo real.


Análise bem feita em relação às questões tratadas no filme, como o estupro embazado pelas leis da época, que dão legalidade a algo terrível, perverso e abusivo.
ResponderExcluirSim, por isso as filosofias éticas morais são necessárias.
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