DEATH NOTE: A MATEMÁTICA PROVA QUE KIRA É UM ANTI-HERÓI?


Light Yagami é um dos personagens mais polêmicos já criados. Isso porque ele coloca as duas grandes correntes filosóficas éticas em direto conflito: a deontologia e o utilitarismo. Light quebra quase todas as regras que a deontologia diz que uma pessoa boa deve seguir. Ele mata, mente, e não tem lealdade nem gratidão a seus aliados. Mas para o utilitarismo, o que importa é o saldo utilitário.

O SALDO UTILITÁRIO DE KIRA

À primeira vista, pode parecer óbvio que Kira tem um saldo utilitário negativo. Afinal, ele mata muita gente. Entretanto, algumas poucas páginas do mangá e cenas do anime revelam informações fundamentais: a taxa de criminalidade reduziu em 70% no mundo todo. O universo de Death Note é de baixa fantasia, o que significa que tudo é igual à vida real, a menos que se diga o contrário. Na vida real, mais de mil pessoas são assassinadas todos os dias. Portanto, ao reduzir a criminalidade em 70%, Light estava salvando mais de 700 pessoas por dia.

No mangá vemos que Light escreve os nomes em 5 colunas de 40 linhas cada. Isso dá 200 nomes por página. Mais tarde no mangá, é dito que Mikami preenche 1 página por dia, e Light acha que Mikami está matando muitos criminosos por dia, o que significa que Light matava menos pessoas por dia. Mesmo que Light matasse 200 pessoas por dia, como ele salvava 700, o saldo utilitário dele fica positivo, com menos 500 mortes por dia.

Light não matava apenas assassinos. Em tese, ele poderia causar a mesma redução no número de assassinatos matando menos gente. Mas mesmo as correntes utilitaristas que defendem que toda vida tem valor igual apoiariam o Light contra o L, pois o Light reduz o número total de mortes no mundo, e o L aumentaria o número total de mortes no mundo se tivesse sucesso. Para todas as correntes do utilitarismo, a atitude do L de tentar achar o Kira e manda-lo para o corredor da morte é indefensável. O mesmo se pode dizer de todos os investigadores. O dilema de death note é como o dilema do bonde. Para o utilitarismo, mesmo que todas as pessoas de todos os trilhos sejam inocentes, é uma obrigação moral desviar o bonde para o trilho com menos pessoas.

Quando L e os policiais que perseguem o Kira dizem que ele tem que ir para o corredor da morte porque é um assassino e viola a lei, eles estão seguindo a deontologia. Para a deontologia, a lei pode ser um fim em si mesmo. Ninguém se espanta com a frieza do pai do Light ao não se importar com a queda de criminalidade causada pelo Kira, mesmo que isso significasse que centenas de pessoas estavam sendo salvas por Kira. Isso porque as pessoas costumam esquecer que esses números representam pessoas. Mas para o utilitarismo, as pessoas representadas por números têm o mesmo valor que seus entes queridos. Se o pai do Light fizesse seu trabalho e tivesse sucesso, centenas de pessoas que seriam salvas por Kira iriam morrer e sofrer.

Para o utilitarismo, a lei é um instrumento para proteger as pessoas, e pode ser quebrada caso segui-la ponha mais pessoas em perigo. Também não há diferença entre mandar para o corredor da morte e matar o Kira diretamente. O resultado é o mesmo: Kira morto e um aumento drástico nos números de todos os crimes pelo mundo.

UNIVERSO DE DEATH NOTE X VIDA REAL

Quero deixar bem claro aqui que não estou defendendo que se faça justiça com as próprias mãos na vida real. Defender Light por seus resultados dentro do universo da obra não significa defender que se mate criminosos na vida real, assim como defender que o Batman é um dos heróis mais próximos de ser puro não significa defender que alguém se vista de morcego e bata em criminosos na vida real. Na vida real, raramente alguém é mais eficiente em resolver algum crime do que o Estado. Fazer justiça com as próprias mãos geralmente só faz com que criminosos se vinguem de você.

DITADOR?

Muita gente diz que Light seria um ditador, mas qualquer análise mais cuidadosa do universo de Death Note revela que isso está muito longe da verdade. Light não substitui o estado, ele é um poder paralelo. Ele não tem como pagar por espiões, ele não controla o orçamento do Estado, ele não controla a infraestrutura de informação, ele apenas a usa. Ele também não tem uma máquina de propaganda. As pessoas poderiam até ter medo de falar mal dele na TV, mas uma máquina de propaganda exigiria que as pessoas falassem bem dele.

Ele escolhia uma emissora de TV para ser a porta-voz dele, e as emissoras brigavam por isso por causa da audiência. Se fosse um ditador, ele se esforçaria para ter controle da narrativa. O Estado poderia limitar drasticamente o poder do Light proibindo o uso de câmeras e máquinas fotográficas. Sem saber o rosto do criminoso, ele não poderia fazer nada.

SEUS OBJETIVOS MUDARAM?

É comum que digam que os objetivos do Light mudam, e que no final, ele não se importava mais com a redução de criminalidade. Entretanto, a verdade é que ele mantém o objetivo de reduzir a criminalidade até o fim. Ele quer ser como um deus, mas ele quer especificamente ser como um deus que reduz a criminalidade. Ele fica incomodado quando Mikami começa a matar gente que cometeu crimes sem intenções más, e também quis corrigir Mikami imediatamente quando ele anuncia que vai matar gente que apenas tem histórico de criminalidade, mas não comete mais crimes. Ele pensa que o objetivo de Kira é assustar as pessoas para impedi-las de cometer novos crimes, e não tem motivo para matar quem já pagou por seus crimes. Isso acontece bem no fim do mangá.

EGOÍSTA?

Alguém que agisse por razões puramente egoístas iria exigir reconhecimento público, templos em seu nome e dinheiro. As pessoas chamam Light de egoísta, mas na verdade ele é menos egoísta que um voluntário de ONG. Ele não quer sacrificar metade de sua vida por olhos de shinigami, mas a maioria das pessoas não sacrificaria anos de sua vida por uma causa. Mesmo um voluntário de ONG pode ganhar amigos que retribuam o favor mais tarde. Light só ganhava inimigos que tentavam leva-lo para o corredor da morte. Querer impor sua visão de mundo é autoritarismo, e não egoísmo. E na verdade, no final, a maior parte da população apoia ele. São os inimigos dele que querem impor o ponto de vista deles à maioria.

PSICOPATA?

Inicialmente, Light fica visivelmente estressado quando percebe que o Death Note funciona, e no mangá ele aparece na cama sem conseguir dormir. Mas continua escrevendo nomes no Death Note para reduzir a criminalidade. Quando Ryuk visita ele, ele diz que tem problemas para dormir, perdeu 4 kg em 5 dias e fica surpreso quando Ryuk diz que não vai puni-lo. E a punição de um shinigami só poderia ser a morte. Oficialmente, Light tem 54kg e 1,79m de altura, portanto, permanece significativamente abaixo do peso. Ele é do tipo de pessoa que perde a fome se estiver sob estresse, e está sempre estressado.

Qualquer traço de psicopatia da personalidade do Light é reversível. Ao perder a memória do Death Note, ele volta à sua personalidade original, e passa a se preocupar com a Misa, recusando-se a manipular os sentimentos dela. Psicopatia é o nome popular do transtorno de personalidade anti-social, que, por definição, não é reversível. Se fosse reversível, psicopatas deveriam ser tratados como pacientes, não como criminosos a serem punidos. Portanto, mesmo que tivesse saldo utilitário negativo, Light entraria na mesma categoria do Lagarto e do Dr. Octopus, inimigos do Homem-Aranha.

L E NEAR

As falhas deontológicas de L também são graves. Ele não mata diretamente, mas tortura suspeitos. Misa chegou a implorar para que Rem a matasse após 1 semana sendo torturada por L. As pessoas subestimam o quão grave a tortura de Misa foi porque não havia sangue, nem ninguém batendo na Misa diretamente, mas manter uma pessoa amarrada exatamente na mesma posição por dias é extremamente doloroso.

Na vida real, ela estaria cheia de úlceras de pressão e não conseguiria andar por dias. Ainda assim, L continua a torturar Misa por semanas após ela pedir para morrer. Foi um ato condenável pela deontologia, e muito mais condenável do ponto de vista do utilitarismo, pois Kira tinha um saldo utilitário positivo, e tentar pegá-lo já era em si um ato indefensável.

O fim de Death Note expõe ainda mais a hipocrisia dos inimigos de Kira. Light é claramente vítima de excesso de força policial. O death note é uma arma inferior para confrontos a curta distância, mas ainda assim Matsuda atira em Light várias vezes, atingindo o tórax e o abdome. Os outros policiais impedem Matsuda de atirar na cabeça de Light, mas nem Near, nem ninguém se importa em leva-lo imediatamente para o hospital. Os ferimentos dele eram claramente fatais sem tratamento imediato, e ele quase certamente teria morrido mesmo se Ryuk não escrevesse o nome dele no caderno.

No fim do mangá, 1 ano após a morte do Kira, Matsuda diz que muitas pessoas ainda se recusam a acreditar que Kira morreu, mas a criminalidade voltou a ser o que era. O próprio Matsuda se pergunta se o que eles fizeram foi certo. Pelo ponto de vista do utilitarismo, o que eles fizeram foi indefensável, e custou a vida não só do próprio Light, mas de todas as vítimas de assassinatos que teriam sido evitados devido ao medo que os assassinos tinham de Kira. O fato de Matsuda ainda trabalhar com Near e os outros é particularmente revelador. Ele deveria ter sido preso pelo menos por tentativa de assassinato contra Light. Isso mostra que os supostos defensores da lei só a seguem quando bem entendem.

O VILÃO PURO

Death Note, na verdade, tem um vilão puro, que é o Mello. Ele quer pegar Kira não para defender a lei, mas para superar Near, não tem características deontológicas relevantes, sequestra pessoas, e é o responsável mais direto pela morte do pai do Light, que pelo ponto de vista da deontologia, é inocente. O fato de ter contribuído para a morte do Kira só deixa o saldo utilitário dele negativo para todas as subcategorias do utilitarismo, sobre as quais iremos falar nos próximos posts.

⚖️ VEREDITO: Light Yagami (Kira)

DEONTOLOGIA (Conduta): Apresenta a virtude da intenção inabalável de proteger inocentes, sacrificando sua própria saúde e paz (perda de 4kg e estresse crônico). Suas falhas (mentira e manipulação) são os meios para um fim altruísta.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): MASSIVAMENTE POSITIVO. Reduziu a criminalidade global em 70% e encerrou guerras. No cálculo frio de vidas, seu saldo é o maior registrado na ficção urbana: salvou milhões ao eliminar milhares.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-HERÓI (RADICAL)

⚖️ VEREDITO: L (Lawliet)

DEONTOLOGIA (Conduta): Possui a qualidade de dedicar-se à ordem pública, mas comete falhas graves: usa vidas como isca (Lind L. Taylor) e pratica tortura prolongada contra Misa. Age movido pelo desafio intelectual, não por empatia.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Trabalhou ativamente para destruir o sistema que salvava 700 vidas/dia. Se vencesse, seria o responsável direto pelo retorno dos índices de criminalidade anteriores.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO

⚖️ VEREDITO: Soichiro Yagami

DEONTOLOGIA (Conduta): Exemplar sob a ótica da lei tradicional. Homem de honra e incorruptível. Contudo, ignora o saldo positivo de Kira por apego dogmático ao código penal.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Ao tentar restaurar o sistema falho, ele trabalha para que as vítimas salvas por Kira voltem a sofrer nas mãos do crime. Sua virtude pessoal gera um dano sistêmico real.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (DOGMÁTICO)

⚖️ VEREDITO: Mihael Keehl (Mello)

DEONTOLOGIA (Conduta): Nula. Age por inveja de Near. Sequestra civis e é o responsável direto pela morte de Soichiro Yagami.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Suas ações não protegem ninguém. Ao desestabilizar o mundo Kira por puro ego, contribui para o retorno do caos global.

CLASSIFICAÇÃO: VILÃO PURO

⚖️ VEREDITO: Near e Matsuda

DEONTOLOGIA (Conduta): Matsuda falha pelo excesso de força (tiros em alvo neutralizado) e Near pela omissão de socorro. Ignoram a lei para satisfazer um desejo de punição.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): EXTREMAMENTE NEGATIVO. Um ano após matarem Kira, o crime voltou ao normal (100%). São os arquitetos do fim da era de paz, responsáveis morais pelo luto de milhares de novas vítimas.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÕES (PUNITIVISTAS)

Um comentário:

  1. Adorei a análise!! Realmente, na minha opinião Kira é um ante herói que do ponto de vista do utilitarismo contribuiu muito para a redução da criminalidade, mas foi prejudicado pela hipocrisia do discurso deontológico . Esse blog faz análises maravilhosas!!

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