Análise ética e classificação de personagens fictícios através do utilitarismo e da deontologia. O tribunal da lógica aplicado à moralidade na ficção.
MALÉVOLA
Enquanto a Malévola da animação de A Bela Adormecida da Disney é uma vilã pura, no live action de 2014, a versão animada é uma caricatura da verdadeira Malévola. No filme, Malévola tem várias características deontológicas positivas, como o desejo de proteger os Moors e o arrependimento por ter amaldiçoado Aurora. Entretanto, também tem falhas deontológicas graves, como amaldiçoar a Aurora bebê por algo que o pai dela fez. Nessa análise, apenas o primeiro filme live action é considerado.
O Saldo Utilitário de Malévola
Calcular o saldo utilitário de Malévola é algo complexo. Ela é protetora dos Moors, mas os monstros árvore parecem não ter dificuldade ao martelar os soldados humanos. Para que Malévola tenha saldo utilitário positivo, ela tem que ser fundamental para a proteção dos Moors, e o número de Moors com nível de consciência humana protegidos tem que ser maior do que o número de soldados mortos por ela.
Malévola é diretamente responsável pela morte do rei Henry. Ao longo do filme, ela salva o corvo Diaval, amaldiçoa uma bebê, e protege essa mesma bebê enquanto ela está com fadas que não fazem a mínima ideia de como cuidar de um bebê. Mas Aurora só estava sob os cuidados daquelas fadas porque Malévola a amaldiçoou. Ela se auto intitula rainha dos Moors, e as criaturas visivelmente têm medo dela. Malévola também é responsável pela morte de Stefan. Sim, Stefan queria matá-la, mas ele só queria matá-la porque ela amaldiçoou a filha dele.
Stefan
Stefan também tem falhas deontológicas graves. Ele trai Malévola e corta suas asas. Mas também tem virtudes deontológicas. O rei Henry queria que alguém matasse Malévola. Stephan não tem coragem de matá-la e por isso “apenas” corta suas asas. Por um lado, ele mente para o rei para ganhar o trono, por outro, ele se recusa a matar sua amiga de infância. Ele tenta proteger a filha, mandando que as fadas a escondessem. Esse plano se provou inútil, mas a deontologia considera as intenções.
Aurora
Aurora, a bela adormecida, é a única heroína pura da história. Ela é uma influência positiva em Malévola e não faz mal a ninguém.
Rei Henry
O Rei Henry é vilão puro por tentar invadir os Moors. Não é dada nenhuma justificativa para que a invasão fosse necessária para o povo, e a única justificativa dada é a ambição. Ele que associa a herança do trono a matar a Malévola, e é parcialmente responsável pela maioria dos eventos negativos do filme.
Conclusão
Tanto Stefan quanto Malévola são anti-vilões no primeiro filme. Stefan é responsável pelo trauma de Malévola e é inútil ao tentar proteger a filha. Malévola passa boa parte do filme tentando corrigir as consequências de seus próprios atos.
Abaixo, segue um gráfico mostrando o espectro moral dos personagens analisados neste post, bem como de alguns personagens analisados em posts anteriores. O eixo y (vertical) indica o saldo utilitário do personagem. Personagens acima da linha preta horizontal têm saldo utilitário positivo, e salvaram/beneficiaram mais pessoas do que mataram ou prejudicaram. A linha azul pontilhada à direita indica personagens com deontologia perfeita e saldo utilitário positivo , e todos os personagens com pontos em cima dessa linha são heróis puros. Quanto mais próximo da linha vertical da parte positiva do eico y, mais "anti" é o herói. Personagens com pontos em cima da linha vertical do eixo y na parte positiva são anti-heróis puramente acidentais, que não têm nenhuma intenção de salvar as pessoas, e não seguem nenhuma regra moral.
Personagens abaixo do eixo horizontal(eixo x), tem saldo utilitário negativo e são vilões ou anti-vilões. Quanto mais afastado para a direita da linha vermelha (eixo y negativo), mais "anti" é o vilão, e mais regras morais ele segue. Personagens com pontos em cima da linha vermelha vertical são vilões puros, que não seguem nenhuma regra moral e têm saldo utilitário negativo.
DONZELA(FILME DA NETFLIX)
Uma boa família real serve a seu povo. Apesar de no imaginário popular ser uma princesa significar viver no luxo, na verdade, ser parte da realeza significa nascer para servir milhares, talvez milhões de patrões. Eles não têm liberdade para decidir fazer outra coisa nem para decidirem casar com quem quiserem.
O PESO DA COROA
O Lord Bayford leva seu dever como rei muito a sério. Tão a sério que aceita arriscar enormemente a vida de sua filha, Elodie, em troca de dinheiro para salvar o povo da miséria e da fome. A reação inicial do público é de choque. Para a maioria das pessoas um pai entregar a filha para ser queimada e morta por uma dragão é injustificável. Entretanto, essas pessoas não são reis nem rainhas. Elas não são responsáveis por um reino inteiro. Deixar milhares de crianças plebeias morrerem de fome para manter sua própria filha segura seria um ato egoísta. Do ponto de vista do utilitarismo, se não havia outra maneira de salvar o povo da fome, aceitar o difícil acordo com o reino de Áurea foi a atitude mais correta.
O POVO INVISÍVEL
Os plebeus do reino de Inodora são apenas citados e talvez representados por uns poucos figurantes. A princesa Elodie é a protagonista. Isso faz com que o público ache que rei deveria ignorar os desconhecidos, mas nunca entregar a própria filha para o sacrifício. Nós não vemos o Lord Bayford analisando outras possibilidades para salvar o reino, mas se houvesse outra saída, ele certamente usaria. Ele usa parte do dinheiro para pagar mercenários para enfrentar a dragão e salvar a filha. Ou seja, ele tentou salvar todo mundo, mas infelizmente, tanto ele quanto os mercenários são mortos pela dragão.
A DRAGÃO
Elodie enfrenta a dragão(em uma cena com uso exagerado de protagonismo), e tem a oportunidade de matá-la, mas não mata. Ela já havia descoberto que a dragão pensava que ela era descendente do antigo rei de Áurea, que tinha matado seus filhotes. O príncipe deÁurea tinha feito um pacto de sangue com Elodie antes de jogá-la no covil da dragão, e a dragão a perseguia por causa do cheiro do sangue dele, um verdadeiro descendente do rei que matou os filhotes.
A VINGANÇA
Ao descobrir a verdade, a dragão queima toda a família real de Áurea, e Elodie volta como rainha de seu reino, com os recursos para salvar os plebeus e a dragão como aliada. Isso significa que as ações do rei Bayford tiveram saldo utilitário positivo, fazendo dele um anti-herói. A dragão, apesar de se tornar aliada de Elodie no final, matou muitas outras princesas por vingança por algo que o suposto ancestral delas tinha feito. Ela demonstra alguma lealdade a Elodie, por isso é anti-vilã , e não vilã pura.
A RAINHA ISABELLE
A rainha Isabelle está menos próxima de ser vilã pura do que a dragão. Isabelle age para proteger a si mesma e a sua família. Se não fizesse o que fez, ela e toda a sua família morreriam. Se a dragão não fizesse o que fez, ela poderia viver normalmente, apenas não se vingaria. Ironicamente, Isabelle faz exatamente o que muitos telespectadores dizem que o pai de Elodie, Lord Bayford, deveria fazer: sacrificar as filhas dos outros para manter a sua família segura. A única diferença é que os sacrifícios de Isabelle são em uma escala muito menor do que um reino inteiro. Afinal são umas 12 princesas, não milhares de plebeus. O príncipe Henry é um anti-vilão mais "anti" do que a mãe dele por se recusar a jogar a irmã mais nova de Elodie no covil da dragão por ser uma criança.
Em termos morais, pelo ponto de vista da deontologia, Isabelle está próxima de Simba, apesar de ele ser visto como herói e ela como vilã!
O gráfico abaixo ilustra o posicionamento ético e moral dos principais personagens analisados nesse post , bem como de alguns personagens analisados em posts anteriores!
📊 Bússola Moral: O Tribunal Utilitarista
Posicionamento dos personagens baseados no Resultado (Y) e no Método (X).
(Melhor Resultado/Alcance)
(Dano/Sofrimento)
(Ética do Método)
⚖️ Utilitarismo (Y): Mede o saldo de bem-estar. O Kira atinge o topo pelo alcance global, enquanto o Shahryar inicial ocupa o fundo pelo dano direto.
📜 Deontologia (X): Mede a integridade do método. Heróis Puros nunca traem seus deveres. Vilões Puros agem sem qualquer código moral (colados ao eixo vertical).
⚖️ Explore o Tribunal:
O Teto do Utilitarismo: Entenda por que a matemática prova que o Kira é um herói utilitário, apesar de seus métodos: Ver análise do Death Note →
A Heroína Pura: Veja como Sherazade atingiu o saldo positivo máximo sem violar um único princípio ético: Ver análise de As Mil e Uma Noites →
Egoísmo de Castal: Por que o sistema de governo de Simba é comparável ao da Rainha Isabelle? Ver análise do Rei Leão →
O INFERNO DE LÚCIFER, A SÉRIE
Lúcifer no trono.
A moralidade de cada ação, do ponto de vista do utilitarismo, muda com a existência confirmada de vida após a morte com inferno e/ou paraíso. Isso vale tanto para a série quanto para religiões em que existe inferno eterno e regras que mandem a maioria das pessoas para lá. Para a deontologia, as regras são fixas e não mudam.
Mas em cenários radicalmente diferentes, as regras da deontologia param de fazer sentido. Por exemplo, matar é a violação máxima da deontologia, mas se matar significar mandar a pessoa para o paraíso, matar significa fazer um bem à pessoa. Para religiões onde o local da vida após a morte é determinado pela bondade ou maldade da pessoa, matar uma pessoa má seria pior do que matar uma pessoa boa.
DEUS
Deus chega para separar a briga de seus filhos, mas nunca disse a eles que deveriam ajudar as almas no inferno.
Na série Lúcifer, o que faz com que uma pessoa vá para o inferno é a existência do sentimento de culpa ao morrer. Por exemplo, Dan morreu se sentido culpado por não ser um pai bom o bastante para sua filha e foi para o inferno. Se Deus criou o inferno e suas regras, ele é o maior vilão da história. Ele nem sequer disse a Lúcifer nem a ninguém que era possível para uma alma do inferno alcançar o céu. Mais precisamente, é um anti-vilão, por também ter criado o paraíso e as coisas boas da Terra.
Ainda assim, o Deus dessa série tem um dos saldos utilitários mais negativos da ficção. Talvez maior até do que o do Thanos. Devo enfatizar que o utilitarismo julga a todos com os mesmos critérios, não importa que sejam deuses. Justificativas como "porque Deus quer" não têm valor no utilitarismo. O que importa para o utilitarismo é o sofrimento das vítimas. Portanto, toda religião que tem sofrimento eterno no inferno e tem regras que mandariam a maioria das pessoas para lá, tem deuses que são vilões ou anti-vilões.
A PRIMEIRA VÍTIMA
Abel é a primeira vítima de assassinato, e o primeiro humano a morrer. Na série, ele foi para o inferno. Os demônios praticaram suas técnicas de tortura nele. Enquanto isso, Caim, o assassino, recebeu uma marca e foi "condenado" a andar pela Terra. Ele era imortal. Mas ironicamente queria morrer, ou achava que queria. O inferno é muito pior que a terra em todos os sentidos. Cada segundo na Terra é 1 ano no inferno.
A cada ano na Terra, as pessoas no inferno sofriam por mais de 300 milhões de anos no inferno. Isso é mais tempo do que o tempo entre os dias atuais e o SURGIMENTO DOS DINOSSAUROS. Não da extinção. Do surgimento. Estima-se que cerca de 100 bilhões de humanos já viveram e morreram na Terra. Se metade dessas pessoas foi para o inferno, são 50 bilhões de pessoas sofrendo o equivalente a mais de 300 milhões de anos de tortura para cada ano terrestre.
Não sei se Abel estava lá há cerca de 6 mil anos terrestres, que é o tempo que alguns religiosos dão para a data de criação de Adão e Eva, ou se estava lá há cerca de 200 mil anos, que é o tempo que os cientistas estimam que viveram Adão e Eva genéticos. Durante todo esse tempo, Abel era morto repetidamente no inferno. Inclusive, quando é trazido de volta para a Terra, Abel implora para que Caim o mate rápido, o que significa que nem sempre as mortes eram rápidas.
A MATEMÁTICA INFERNAL
Consegue calcular o quanto de sofrimento Abel acumulou em todos esses anos? 1 segundo = 1 ano no inferno. Então 1 ano na Terra = 365 x 24= 8760h, 8760x 60= 525.600 minuto, 525600 x 60=346.896.000 segundos. Portanto, 1 ano na Terra = a 346.896.000 anos no inferno. Se se passaram 6.000 anos na Terra desde que Abel foi para o inferno, nesse tempo ele passou 2.081.376.000.000 de anos no inferno sendo torturado. E já que Abel foi a primeira vítima de assassinato, ele não tinha matado ninguém.
O DIABO E SEU DEMÔNIO
Lúcifer ordena que Maze torture um homem.
Lúcifer e Maze não parecem incomodados com isso. Lúcifer tem poder para pausar e/ou modificar o ciclo de tortura de alguém no inferno. Na verdade, diversas vezes durante a série ele manda Maze torturar pessoas. Lúcifer disse diversas vezes que ele delegava tarefas no inferno, inclusive enquanto mandava Maze torturar os outros, então alguma participação ele tem sim nas torturas, e o saldo negativo disso é absurdo. Maze, inclusive, é chamada de a torturadora mais brutal do inferno. E Lúcifer mandou Maze torturar a própria mãe dele quando ela foi mandada para o inferno. Torturar pessoas por trilhões de anos é uma atrocidade pior do que qualquer crime já cometido por qualquer ser humano.
EVA
Maze tortura Adão, Eva assiste.
Eva namorou Lúcifer e no final se casou com Maze. Ela se casou com a mulher que torturou seu filho por trilhões de anos. A Eva parece não ter muita noção de como é o inferno. Mas ela já esteve no céu, então ela sabe que Abel não está lá. Eva e Maze são anti vilãs, pois demonstram se importar com certas pessoas (algumas características deontológicas positivas), mesmo com saldo utilitário negativo.
Eva poderia pedir a Lúcifer que fosse ao inferno garantir que Abel estava bem, já que ela não gostava do Caim por ter matado o "gentil e doce" Abel dela. Lúcifer além de permitir/ participar da tortura de Abel, também matou Caim e o mandou para o inferno. Eva também matou o padre William Kinsley. Sim, ele queria matá-la, mas legítima defesa não é um bom argumento quando você já morreu, foi para o céu e voltou porque achou chato. Kinsley foi para o inferno, um ambiente de tortura.
Eva também manda o padre Kinsley falar para os demônios do inferno virem atrás do rei deles. O demônio Dromos possuiu o corpo de Kinsley, e quando Lúcifer diz que não vai voltar para o inferno, ele mata pessoas para mandá-las para o inferno, e assim outros demônios possuíram seus corpos e mataram ainda mais pessoas que foram para o inferno. Por isso Lúcifer volta ao inferno por 2 meses terrestres.
O DIABO É ANTI-HERÓI?
Lúcifer manda seus demônios de volta para o inferno.
Lúcifer só se torna anti-herói no fim da quarta temporada, pois é uma alternativa melhor para o cargo de rei do inferno do que Dromos, que queria fazer o filho de Amenadiel de marionete. Se a série terminasse na terceira temporada, quando foi cancelada, Lúcifer terminaria como anti-vilão. A Netflix salvou o diabo de ser anti-vilão.
O Dan era ex-marido da Chloe e pai da filha dela, então Lúcifer ele ordenou que os demônios não o torturassem e o deixou fora do loop infernal. Mas ainda deixou todos os outros sendo torturados no loop infernal. No final, Lúcifer decide ajudar todas as almas do inferno a superarem suas culpas e irem para o paraíso, mas as únicas pessoas que conseguiram foram o Dan e Lee Garner. Não se sabe se Lúcifer teve sucesso com outros ou não.
SOFRIMENTO INÚTIL
Dan vai para o céu.
Maze diz que o loop infernal dá pistas do que Dan precisa saber para ir para o céu. Mas no fim, ele possui o corpo do assassino dele, fala com a filha dele, e ela diz que ele foi um ótimo pai. Então a culpa que fez ele ir para o inferno tinha sido a culpa de não ter sido um bom pai. Depois disso, Dan foi para o paraíso. Um ponto importante é que Dan não passou pelo loop infernal, mas conseguiu superar a culpa e ir para o paraíso. Isso prova que o loop infernal não é necessário para ir para o paraíso, e Abel foi morto repetidas vezes por trilhões de anos sem nenhum benefício para ninguém.
Tanto Abel quanto Lee Garner têm o loop infernal de serem mortos repetidamente. Malcom Graham ficou sem água, comida, sem nenhuma forma de entretenimento, e quando Amenadiel trouxe ele de volta para a Terra, ele estava traumatizado. Antes de ele morrer, a família dele estava chorando por ele estar em coma e ter os aparelhos desligados. Mas quando ele foi revivido, pouco tempo depois a esposa dele estava querendo mata-lo caso ele voltasse para casa. Ele também mata várias pessoas.
Embora já fosse corrupto, Malcom não era um assassino em série. Apenas Lee Garner conseguiu sair do inferno através do loop infernal. Isso prova que os loops infernais são extremamente ineficientes em curar pessoas, podem na verdade traumatiza-las e deixa-las piores, e têm um saldo utilitário extremamente negativo.
A ESCADA PARA O CÉU
A fandom wiki de Lúcifer diz que Abel foi para o céu quando morreu pela segunda vez. Charlotte Richard também foi para o inferno quando a deusa possuiu o corpo dela, mas foi para o céu quando morreu. Eu não vi confirmação na própria série de que Abel foi para o céu depois que Lúcifer o trouxe do inferno para a Terra, mas se isso for verdade, isso reforça ainda mais que trazer almas do inferno para a terra é o método mais eficiente de fazê-las alcançar o paraíso.
CHLOE
Chloe teve um papel importante na evolução moral de Lúcifer, mas como matou pessoas que confirmadamente foram para o inferno, como Vincent e Malcom, ela teria que ter um benefício comprovado maior para compensar o sofrimento de quem ela mandou para o inferno. Ela era investigadora de assassinatos, prendeu muitos assassinos, e os próprios caras que ela matou também eram assassinos.
Chloe mata Vincent.
O que poderia salvar Chloe de ser anti-vilã é o fato de que as potenciais vítimas futuras de Vincent e Malcom, por exemplo, poderiam também ir para o inferno mais cedo por causa deles. Entretanto, se eles matassem suas vítimas antes de fazer algo que as deixasse culpadas, eles poderiam paradoxalmente salvá-las do inferno. Nesse sistema, um assassino pode ser uma faca de dois gumes.
Mesmo que eles fossem para o inferno depois de morrer naturalmente após talvez uns 30 anos, essa perda de 30 anos ainda significou bilhões de anos a mais no inferno para eles. Se o tempo a mais no inferno não ajuda a ir para o céu mais rápido, essa perda de vida significa apenas sofrimento a mais.
Quando Chloe vai para o inferno após morrer, Lúcifer está fazendo uma espécie de terapia em grupo com Reese, o ex-marido da Linda, Vincent, o assassino do Dan, mais uma mulher desconhecida. Se Lúcifer prioriza as almas que ele conheceu na Terra, e isso é mostrado, a eficiência desse método para ajudar almas a ir para o céu é baixa, já que se passaram 40 anos na Terra e bilhões de anos no inferno desde que Lúcifer decidiu ajudar as almas.
Encontro romântico? Aqui começa uma eternidade de dependência.
O benefício comprovado que conta com a participação de Chloe é o fato de Lúcifer pelo menos pausar os loops temporais de pelo menos 3 pessoas por vez para a terapia. Se Lúcifer passar 12h por dia infernal naquelas sessões de terapia, isso evita a tortura no loop infernal daquelas pessoas específicas. Inclusive, aparentemente servem donuts lá. Se Lúcifer passou bilhões de anos fazendo isso, ele também poupou bilhões de anos em dor.
Um ponto importante é que o utilitarismo dá mais peso a consequências do futuro próximo e menos peso a consequências do futuro distante. Mas uma barreira importante para a extensão do prazo para as consequências é o tempo de vida das pessoas atuais. Você não pode sacrificar pessoas existentes hoje para beneficiar pessoas potenciais no futuro.
Em um mundo onde as pessoas vivem eternamente no céu e/ou no inferno, a vida na Terra é só uma sala de triagem inicial para saber onde essa pessoa vai passar a eternidade, e esse limite para de fazer sentido. O pós vida é onde 99,9999999% da experiência consciente acontece. Para as cerca de 100 bilhões de pessoas mortas no céu e no inferno, a vida na Terra seria como uma memória muito distante da infância. Portanto, se Lúcifer continuar fazendo terapia com as almas do inferno para que elas alcancem o céu, a longo prazo, o saldo utilitário de Chloe tende a ficar positivo.
No final, é muito difícil de acreditar que Chloe seria feliz passando a eternidade no inferno com Lúcifer. O tempo que eles passaram juntos na Terra foi um piscar de olhos diante do tempo que ele passou no inferno. Quando eles se reencontram no inferno, parecem velhos amigos se reencontrando, não dois apaixonados. No inferno, Chloe dependeria totalmente dele. Ela não tinha amigos lá. E Lúcifer já tinha tentado fazer do inferno um lugar melhor para Dan, mas ele só ficava entediado o tempo todo. Simplesmente não tinha muito o que fazer lá.
Lúcifer tira Chloe do paraíso.
A proporção entre o tempo de vida na Terra e o tempo subjetivo no pós-vida também muda completamente a moralidade do ato de Lúcifer ir buscar Chloe no paraíso quando ela morreu a primeira vez. Chloe estava feliz com o pai dela no paraíso. E nós sabemos o quanto a morte do pai dela foi impactante para ela. Quando morreu pela segunda vez, ela foi para o inferno, e por mais que ela goste do Lúcifer, ser totalmente dependente de alguém é uma péssima idéia. Isso faz com que o “resgate” de Chloe do paraíso seja um ato egoísta, não um ato heroico como inicialmente parecia.
Eles nem ao menos moraram juntos na Terra. Isso seria crucial para que ela pudesse fazer uma decisão tão importante quanto passar os próximos trilhões de anos no inferno. Lúcifer a abandonou e voltou para o inferno pouco tempo depois porque a filha deles pediu. Para Lúcifer, o inferno pode ser melhor com Chloe lá. Entretanto, se Lúcifer decidir visitar a Terra por um dia sequer, ela vai ficar sozinha no inferno por milhares de anos.
A HEROÍNA QUASE PURA
Quem tem saldo utilitário muito positivo é a terapeuta Linda Martin. Ela também tem participação importante na mudança de comportamento de Lúcifer, inclusive inspirando as sessões de terapia que Lúcifer faz no inferno. Mas sem o saldo utilitário massivamente negativo de mandar alguém para o inferno.
AS MIL E UMA NOITES DE TERROR
Quando eu era criança, vi o trailer de um filme cheio de efeitos especiais que iria passar no SBT. O filme foi anunciado como um filme de fantasia. Entretanto, o filme (na verdade uma minissérie editada), era sobre um rei que ao ser traído pela esposa decide matá-la, se casar com uma mulher toda noite e matá-la no dia seguinte. Isso deveria ser suficiente para tirar qualquer possibilidade de redenção para esse rei.
A HEROÍNA
Uma mulher decide se voluntariar para casar com o rei e salvar as outras. Essa mulher é Sherazade. Ela consegue adiar a própria execução por mil e uma noites ao contar histórias e convencer o rei a não a matar para saber o que ia acontecer no final. Até que ele decide poupá-la definitivamente e eles têm filhos. O filme trata isso como um final feliz. Mas deveria horrorizar qualquer pessoa.
O COMPLETO MONSTRO
O rei Shahryar é um assassino e estuprador sistemático. As mulheres não podiam recusar o pedido de casamento dele, que era uma sentença de estupro e morte. Sherazade se oferece, mas relações sexuais sob grave ameaça também é estupro. E casar, estuprar e matar outras mulheres é uma grave ameaça. As outras mulheres são figurantes no filme, mas provavelmente eram amigas e até parentes de Sherazade.
Sherazade podia se recusar ter relações sexuais? Não, isso seria morte certa na manhã seguinte. Ela contava as histórias enquanto eles estavam na cama, o que sugere que as relações sexuais já tinham ocorrido. E os filhos são provas dos estupros.
LEI X MORAL
Alguns podem argumentar que qualquer relação sexual dentro do casamento naquela época e naquela cultura não poderia ser considerada estupro. Mas as leis daquele reino eram feitas por um serial killer de mulheres. Ele era o rei. Ele era a lei. Basicamente, ele poderia fazer o que quisesse, mas certas ações não deixam de ser consideradas erradas por estarem tecnicamente dentro da lei local. As vítimas não deixam de sofrer. As famílias não deixam de sofrer.
As leis justas proíbem certas ações por serem moralmente erradas e causarem sofrimento. A ilegalidade dos atos não os torna errados. A legalidade dos atos não os torna certos. A moralidade ou não de um ato vem antes da lei. As leis justas são ferramentas para impedir atos imorais.
FILOSOFIAS MORAIS
Para o utilitarismo, a moralidade ou imoralidade de uma ação depende de quanto sofrimento e de quanta felicidade essa ação causa. Para a deontologia, as regras são fixas e independem das consequências. As filosofias éticas não mudam de acordo com o local nem com a época. O rei Shahryar pode mudar as leis para fazer o que quiser, mas ambas as filosofias éticas o condenam. Portanto, ele é um vilão puro. Sherazade arriscou sua vida para salvar pelo menos 1001 mulheres, é perfeita pela deontologia e tem saldo utilitário muito positivo. Portanto, ela é uma heroína pura.
⚖️ GLOSSÁRIO DO TRIBUNAL UTILITARISTA
• VILÃO PURO: Age por egoísmo, prazer ou orgulho (Intenção Maligna) e gera um saldo de dor e morte (Resultado Negativo).
Exemplo: Rei Shahryar (Mata por ego e medo de traição).
• HEROÍNA/HERÓI PURO: Age por dever e altruísmo (Intenção Nobre) e gera um saldo de bem-estar ou vidas salvas (Resultado Positivo).
Exemplo: Sherazade (Arrisca-se para salvar 1001 mulheres).
• ANTI-HERÓI: Aquele que, embora use métodos violentos ou questionáveis, gera um saldo utilitário positivo para a sociedade no longo prazo.
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• ANTI-VILÃO: Aquele que possui uma intenção nobre ou altruísta, mas cujas ações resultam em um saldo utilitário negativo ou falham em gerar um benefício coletivo real.
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