Deadpool é considerado um anti-herói por muitos. Mas aqui nesse tribunal, para ser considerado um anti-herói é preciso ter um saldo utilitário positivo. Será que Deadpool preenche esse critério no primeiro filme?
Antes de qualquer análise mais profunda, já é possível concluir que Deadpool não é um herói puro. Ele mata dezenas de pessoas durante o filme, mesmo quando Colossus tenta impedi-lo. E não importa quantas piadas ele faça, cada morte pesa no saldo utilitário dele. Mas ele também não é um vilão puro, pois tem o desejo de salvar Vanessa de Francis na luta final. Portanto, anti-herói e anti-vilão são as únicas categorias possíveis para o protagonista.
MOTIVAÇÕES
Deadpool mata dezenas de pessoas para encontrar Francis. Mas ao menos inicialmente, Francis não estava ameaçando a vida de Vanessa. A motivação de Deadpool é encontrar Francis para que ele o deixe bonito novamente para Vanessa. Basicamente, ele está matando pessoas por uma cirurgia plástica. Francis já o havia curado do câncer. Sim, Francis causou dor a ele desnecessariamente durante o procedimento, mas ainda assim, o curou de um câncer terminal.
FRANCIS
Francis com certeza não é um herói puro. Ele recruta pessoas com doenças terminais para transformá-las em mutantes e vende-las como soldados. A maior parte dessas pessoas morre, apenas uma minoria (como Deadpool) sobrevive. E como ocorre com Deadpool, Francis causa dor desnecessariamente aos pacientes. Francis e Deadpool estão conectados de uma forma que o saldo utilitário de um depende do saldo utilitário do outro. O problema é que assim como ocorre no post anterior, de Law and Order diferentes vertentes do utilitarismo entram em conflito a respeito do saldo utilitário de Francis.
UTILITARISMO CLÁSSICO
O utilitarismo clássico analisaria a quantidade de pessoas salvas e a quantidade de pessoas que tiveram o experimento de Francis como causa de morte mais imediata. A quantidade de pessoas que morrem no experimento de Francis é maior do que o número de pessoas curadas e transformadas em mutantes. Portanto, Francis tem saldo utilitário negativo nessa vertente.
UTILITARISMO PONDERADO PELOS ANOS DE VIDA
Mas o utilitarismo ponderado pelos anos de vida em potencial consideraria que o experimento de Francis tem saldo utilitário positivo, pois os anos de vida ganhos pelos sobreviventes pesam mais do que os meses ou semanas perdidos pelos doentes terminais que morreram. Na vida real, pacientes terminais de câncer frequentemente aceitam participar de tratamentos experimentais dolorosos para terem a chance de cura, mesmo que esses tratamentos possam mata-las mais cedo do que a própria doença. Já vimos essa vertente no post anterior!
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UTILITARISMO DE PREFERÊNCIAS
O utilitarismo de preferências avalia que as opções daqueles pacientes terminais eram muito ruins, mas participar do experimento de Francis era a opção menos ruim. A possibilidade de cura fazia com que muitos pacientes preferissem o experimento, por mais doloroso que fosse e apesar da chance de serem vendidos como soldados. Escravos vivos podem fugir, mas mortos “livres” não podem ressuscitar. O saldo utilitário de Francis é positivo nessa vertente, pois a oferta dele era “melhor” do que simplesmente esperar para morrer de câncer lentamente.
UTILITARISMO NEGATIVO
Para essa vertente do utilitarismo, evitar a dor é mais importante do que prolongar a vida. Portanto, o saldo utilitário de Francis é negativo para essa vertente, pois ele causa dor extrema em suas cobaias humanas.
O QUE ISSO SIGNIFICA PARA DEADPOOL?
Se Francis, isoladamente, tem saldo utilitário positivo em algumas vertentes do utilitarismo, e o objetivo de Deadpool no primeiro filme é encontrar Francis para que ele conserte seu rosto e depois se vingar dele, Deadpool tem saldo utilitário negativo nessas mesmas vertentes. Mesmo nas vertentes em que Francis tem saldo utilitário negativo, esse saldo não é negativo o suficiente para que Deadpool tenha saldo positivo. A quantidade de pessoas que vemos Deadpool matando é superior à quantidade de pessoas que vemos Francis fazendo de cobaia.
Ironicamente, quem puxa o saldo utilitário do Francis para baixo no primeiro filme é o próprio Deadpool. Sem o experimento de Francis, Deadpool simplesmente morreria de câncer e todo mundo que Deadpool transforma em espetinho de carne estaria vivo. Classicamente, o saldo utilitário da criatura de um cientista entra na conta do criador, como já vimos no post “O Arquétipo do Cientista Bem-Intencionado e Descuidado”
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Mas Francis não é exatamente bem-intencionado. A única coisa que faz com que Francis seja um anti-vilão, e não vilão puro é o fato de ele pelo menos tentar ter um saldo utilitário positivo e usar doentes terminais que poderiam se beneficiar do experimento. Assim, Francis está em uma área de tríplice fronteira entre o anti-herói, o anti-vilão e o vilão puro. Nem mesmo Light Yagami( Kira), que provoca muitas discussões a respeito de sua classificação como anti-herói, anti-vilão e vilão, é tão fronteiriço assim.
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No primeiro filme, Deadpool também é anti-vilão, pois tem saldo utilitário negativo em todas as vertentes, apesar de ter algumas características deontológicas positivas, como o desejo de salvar sua namorada, Vanessa. Mas se o saldo utilitário dele melhorar nas continuações do filme, ele não só pode migrar para a categoria de anti-herói, como também arrasta Francis para a categoria de anti-herói, mesmo que ele o tenha matado no primeiro filme.
UM HÉROI PURO?
O mutante metálico Colossus é o verdadeiro herói do primeiro filme. Ele é contra a matança de Deadpool, ajuda Deadpool a salvar Vanessa na batalha final, e até tenta convencer Deadpool a poupar a vida de Francis. Afinal, Francis ainda era um cientista que tinha curado um câncer! O tratamento era doloroso, mas infelizmente, todo tratamento de câncer é doloroso. Ele poderia ser preso e convencido a passar seus conhecimentos para outros, por exemplo. Mas Deadpool mata Francis por pura vingança depois que ele já tinha sido derrotado.
Muitas pessoas pensam que o personagem mais politicamente incorreto é o que mais é apoiado pelo utilitarismo, mas isso não é verdade. Nesse filme, o personagem “certinho chato” é também o com saldo utilitário mais positivo. Ele só ajuda a salvar uma pessoa, mas seus “concorrentes” têm saldo utilitário negativo.
⚖️ VEREDITO: Colosso (Piotr Rasputin)
DEONTOLOGIA: Nota máxima (100/100). Demonstra autolimitação absoluta ao recusar o uso de força letal, mesmo possuindo poder físico superior. Tenta impedir as matanças de Deadpool.
UTILITARISMO: POSITIVO. Ajuda a salvar Vanessa. Ao tentar poupar Francis, visava preservar o conhecimento da cura do câncer para a humanidade.
CLASSIFICAÇÃO: HERÓI PURO
⚖️ VEREDITO: Francis Freeman (Ajax)
DEONTOLOGIA: Quase nula (01/100). Quebra quase todas as regras: tortura, sequestro e total ausência de empatia. Sua única "regra" é o critério de cobaias terminais, possivelmente por conveniência logística.
UTILITARISMO: Divide vertentes se descontarmos as ações de Deadpool. Positivo em Anos de Vida (gera séculos para quem tinha meses); Negativo em Utilitarismo Negativo (geração de dor extrema);Positivo no utilitarismo de preferências(doentes terminais preferem tentar o tratamento experimental e doloroso);e Negativo por Causalidade (responsável pela criação do agente de caos Deadpool).
CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (CIENTISTA BÉLICO)
⚖️ VEREDITO: Wade Wilson (Deadpool)
DEONTOLOGIA: Baixa. Age por vingança e retribuição pessoal, ignorando leis e códigos morais. Sua "bondade" é seletiva e restrita ao seu círculo afetivo imediato.
UTILITARISMO: MASSIVAMENTE NEGATIVO. Consome dezenas de vidas saudáveis e destrói infraestrutura médica para satisfazer um egoísmo estético. Ao matar Francis, ele "apaga" a única fonte da cura que o salvou, privando outros pacientes terminais da mesma chance.
CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (VÍTIMA REATIVA)

Gostei muito das análises. Confesso que o que mais me chamava a atenção no Deadpool eram as piadas e os inúmeros palavrões que ele fala, levando as pessoas a rirem a todo instante. O humor se sobrepõe aos absurdos a ponto de acharmos um filme light, de piadas e divertido mas, na verdade, é uma chacina.
ResponderExcluirSim, o enquadramento narrativo é tudo na percepção que as pessoas têm do filme e do personagem.
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