O Arquétipo do Cientista Bem-Intencionado e Descuidado: Como Boas Intenções Podem Gerar Anti-Vilões?

É muito comum um filme de ficção científica começar com um cientista criando algo que em sua visão melhoraria a vida da humanidade. Entretanto, a invenção não funciona como o esperado e os resultados são catastróficos. Do ponto de vista do utilitarismo, os resultados das ações desses cientistas são claramente negativos, e não faz diferença para suas vítimas quais eram as suas intenções. A deontologia leva mais em consideração as intenções do indivíduo, e ele pode até ser considerado uma boa pessoa que cometeu um erro terrível. Vários filmes famosos têm personagens assim.

Frankeinstein

Foi o livro que inaugurou o arquétipo. Victor Frankeinstein é um cientista que deseja vencer a morte. Entretanto, após dar vida à sua criatura, a maltrata e a abandona. A criatura mata várias pessoas durante a história , colocando seu criador na categoria dos anti-vilões.

Jurassic Park

Jhon Hammond queria trazer de volta animais pré-históricos e encantar as pessoas. Entretanto, deixou o sistema de segurança do parque, que continha animais obviamente perigosos nas mãos de um único funcionário mal pago, com quem ele decidiu poupar despesas. O parque tinha óbvias violações de segurança. O primeiro dinossauro que vemos é um saurópode(pescoçudo) adulto. Não é porque o animal é herbívoro que ele não é perigoso. Elefantes são herbívoros, e nem por isso passeiam livremente pelos zoológicos.

O cientista chefe responsável pela criação dos animais é o Dr. Wu, mas ele talvez seja reincidente demais para ser considerado bem intencionado. Ao menos inicialmente, ele tomou medidas de segurança para que os dinossauros não se reproduzissem caso escapassem. Ele fez com que os dinossauros fossem sempre fêmeas e fossem deficientes em lisina, o que supostamente causaria a morte de indivíduos que escapassem.

Mas mesmo depois de todas as mortes causadas pelos dinossauros, em Jurassic World Dr.Wu cria a Indominus Rex, misturando DNA de tiranossauro, de velociraptor, e de vários animais modernos. Além de combinar o DNA das duas espécies de dinossauros que mais mataram pessoas, ainda combina o DNA deles com o de sépias para que o híbrido tenha capacidade de se camuflar. Isso não é uma característica útil para uma atração de zoológico, mas sim para um predador. Assim, Wu cruzou a linha de anti-vilão para vilão. Ele estava usando os recursos do parque para criar dinossauros como armas de guerra para o exército. E estava deliberadamente escondendo as espécies usadas na criação da Indominus Rex.

Como se não bastasse, em Jurassic World: Reino Ameaçado, Wu cria o Indorraptor, explicitamente como uma arma de guerra, que assim como boa parte dos dinossauros criados por ele, escapa e mata muitas pessoas.

Entretanto, em Jurassic World: Domínio, Wu se arrepende de criar os gafanhotos gigantes projetados para comer todas as plantações que não fossem de sementes criadas pela Biosyn, e solta gafanhotos com um patógeno para combater os demais. Com esse ato, Wu pode ser considerado um anti-vilão nesse filme. Ele se arrependeu, mas só eliminou um problema que ele mesmo criou, e seu saldo de vidas, mortes e sofrimento permanece negativo. No utilitarismo, não apagamos o passado com um único ato bom. O Dr. Wu salvou o mundo dos gafanhotos em Domínio, mas ele foi o homem que deu ao mundo os gafanhotos e os dinossauros assassinos de Jurassic World.

O Planeta dos Macacos

Will Rodman também se encaixa no arquétipo de cientista bem intencionado que causa uma catástrofe. Ele busca a cura para o Alzheimer para salvar o pai, mas quebra protocolos de segurança ao criar um chimpanzé afetado por um vírus experimental em casa. Chimpanzés são animais extremamente agressivos, fortes e perigosos. Criar um em casa é um crime. César só ataca alguém para proteger o pai de Will, mas na vida real, ataques de chimpanzés criados como animais de estimação causam danos graves e são quase inevitáveis. Will ama César, mas o melhor para ele seria viver em uma floresta. E o melhor para a humanidade seria que ele seguisse os protocolos de segurança e não trouxesse animais infectados com vírus experimentais para casa.

Will mais uma vez viola os protocolos de segurança ao testar seu vírus experimental no próprio pai, sem o conhecimento do laboratório. Seu desejo de salvar o pai é compreensível, mas tratamentos experimentais frequentemente têm efeitos colaterais graves. Uma minoria tem efeitos positivos. Inicialmente, o pai de Will melhora. Mas regride pouco tempo depois. Assim, Will cria um novo vírus que tivesse efeitos mais duradouros. Infelizmente esse novo vírus matou bilhões de pessoas, em uma pandemia que colapsou a civilização humana.

O saldo utilitário de Will é um dos mais negativos da ficção. Isso o coloca firmemente na categoria de anti-vilão, e prova que anti-vilões são tão ou mais perigosos do que vilões puros. Para as bilhões de vítimas do vírus que criou, não importa se Will queria salvar seu pai, nem se ele amava César.

Homem-Aranha

Dr. Connors, de O Espetacular Homem Aranha, pesquisa uma forma de regenerar membros amputados. Entretanto, ao usar a si mesmo como cobaia, se transforma em lagarto, tornando-se agressivo, causa destruição, mortes, e tenta transformar todos em lagartos como ele. Mas sua transformação é reversível, e ele pode retornar a sua personalidade normal, o que o distingue de um vilão puro.

Dr. Octopus, também inimigo do Homem-Aranha, é um homem bom que cria tentáculos robóticos com IA e se conecta a eles. Mas a IA corrompe sua mente, ele causa mortes e destruição. Assim como Connors, a reversibilidade dessa corrupção mental o impede de ser um vilão puro, mas os danos causados, sem benefícios que os compense, o separam das categorias de herói e anti-herói.

Menção Honrosa( ou desonrosa?): Dr. Miles Dyson, de O Exterminador do Futuro, cria a Skynet para melhorar a vida das pessoas, mas sua criação dizima a humanidade.

⚖️ VEREDITO: Victor Frankenstein

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Começa com o desejo nobre de banir a morte, mas comete a falha ética de abandonar sua criação sem guia, fugindo da responsabilidade.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Sua negligência resultou em assassinatos de inocentes e na destruição de sua própria família.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO

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⚖️ VEREDITO: Dr. Henry Wu

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Oscila entre curiosidade e egoísmo mercenário. Criou predadores como armas biológicas, abandonando a ética profissional.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): MASSIVAMENTE NEGATIVO. Gerou pragas globais e mortes sistemáticas. Tentar consertar o erro no fim não apaga o histórico de danos.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO

⚖️ VEREDITO: Will Rodman

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Intenção puramente altruísta de curar o pai, mas foi imprudente ao não prever o risco biológico global.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): EXTREMAMENTE NEGATIVO. Ao tentar salvar uma pessoa, causou uma pandemia que extinguiu a civilização humana.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO

⚖️ VEREDITO: Dr. Curt Connors

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Buscava a cura para amputados. Sua conduta moral foi corrompida por uma alteração biológica externa (o soro), retirando sua agência moral plena durante os ataques.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Causou destruição urbana e mortes. A reversibilidade de sua mutação o afasta da vilania pura, mas o saldo de dor gerado não é compensado por benefícios.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (Agência Comprometida)

⚖️ VEREDITO: Dr. Otto Octavius

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Cientista brilhante focado em energia sustentável. Foi vítima de uma corrupção mental causada pela Inteligência Artificial de seus tentáculos.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Gerou mortes e caos financeiro/social. Assim como Connors, a reversibilidade de sua condição e sua intenção original o classificam no campo dos anti-vilões.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (Agência Comprometida)

⚖️ VEREDITO: Miles Dyson

DEONTOLOGIA (Conduta/Intenção): Possuía uma intenção puramente progressista de melhorar a vida humana através da tecnologia. Demonstrou grande virtude ao tentar destruir o próprio projeto ao descobrir o perigo.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): MASSIVAMENTE NEGATIVO. Sua pesquisa serviu de base para a Skynet, resultando no extermínio de bilhões de seres humanos.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO

3 comentários:

  1. Hoje, é praticamente impossível recriar dinossauros verdadeiros.
    O DNA se degrada com o tempo, e dinossauros foram extintos há cerca de 66 milhões de anos com tempo demais para o material genético sobreviver intacto. O que alguns cientistas estudam não é “reviver Jurassic Park”, mas editar geneticamente aves (que descendem de dinossauros) para reativar características antigas.
    Trabalhar com espécies extintas mais recentes (como o mamute-lanoso). Os filmes apesar de fictício são bom exemplo de como não usar modificações que podem causar problemas ecológico e humanitário.

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    1. Sim, eu sei. Filmes e obras de ficção em geral nos fazem refletir sobre situações hipotéticas, e são um bom exercício para as correntes filosóficas éticas, como o utilitarismo e a deontologia!

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  2. Show! Gostei das análises!! Parabéns!!!

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