Porque é Praticamente Impossível Ser Um Super-Herói Puro?

A deontologia é uma corrente filosófica ética que afirma que alguns atos são intrinsecamente errados, e que não importam as consequências desses atos. Portanto, matar é sempre errado, não importa se esse ato salvar um número maior de pessoas. Roubar é considerado uma falha menos grave, e mentir é uma falha leve.



Superman


Alerta de spoilers


Como já disse antes, um herói puro teria que ser bom tanto pelo ponto de vista do utilitarismo quanto pelo ponto de vista da deontologia. Super-heróis, principalmente os mais poderosos, enfrentam super-vilões igualmente poderosos. Esses vilões são capazes de destruir planetas inteiros, até mesmo galáxias inteiras, e em casos ainda mais extremos, universos inteiros. É impossível prendê-los na cadeia.

Quanto mais super é o super-herói, mais ele tem que enfrentar situações análogas ao dilema do bonde em escalas colossais. Por exemplo, o Superman sabe que a luta dele com o Zod vai destruir prédios e matar muita gente. Mas ele tem que lutar mesmo assim e matar Zod, violando o princípio mais forte da deontologia. Mas deixar Zod vivo significaria uma falha catastrófica do ponto de vista do utilitarismo, pois ele transformaria a atmosfera da Terra na atmosfera de Krypton, matando todos os terráqueos. Zod, por sua vez, quer salvar a sua espécie, podendo ser considerado um anti-vilão.


Batman


Já heróis como o Batman, por exemplo, que só é super por ser super rico, enfrentam vilões menos poderosos, como o Coringa, que é um perigo para a cidade, mas não para o planeta como um todo. Batman, na maioria das versões, segue à risca o princípio deontológico de não matar. Ele prende o Coringa, mas não o mata. O Coringa foge repetidamente da prisão e mata muitas pessoas. Do ponto de vista do utilitarismo, seria melhor se o Batman matasse o coringa. Mas atualmente, o utilitarismo mais utilizado é o utilitarismo escalar. As ações não se dividem em certas ou erradas, mas em vários níveis de bem e mal. Portanto, Batman pode manter um saldo utilitário positivo, seguir as regras mais importantes da deontologia, e ser um herói, mesmo que não mate o Coringa. Pelo menos, ele prende o Coringa, o que é melhor do que deixá-lo solto permanentemente.


MCU



Alerta de Spoilers


Um personagem que parece tentar seguir o utilitarismo, mas falha catastroficamente é o Thanos. Ele quer eliminar metade das pessoas do universo para que a outra metade possa viver melhor com mais recursos. O problema é que ele ignora o trauma na população restante por perder metade de seus familiares e amigos. Nós não vemos pessoas morrendo de fome nos filmes, e se houver, é um problema de distribuição de recursos, não de falta de recursos. Matando metade da população do universo, ele também elimina metade dos empregos, e o problema da fome geralmente é devido à falta de dinheiro. O saldo utilitário das ações dele é extremamente negativo.


Todos os Vingadores concordam que é necessário matar Thanos. Logo, todos eles são anti-heróis, alguns mais “anti” que os outros. Capitão América, se atendo a um princípio deontológico, se recusa a sacrificar Visão para impedir que Thanos obtenha sua joia e complete a manopla. Essa atitude o coloca tanto mais perto de ser herói puro quanto de ser anti-vilão. O que o “salva” de ser anti-vilão é o fato de que suas ações não foram determinantes para que Thanos completasse a manopla. O Dr. Estranho avaliou milhões de possibilidades de ação, e em apenas uma eles venciam, que foi a que aconteceu.


Os anti-heróis mais obviamente “anti” dos Vingadores são os Guardiões da Galáxia. Eles já eram criminosos antes de salvar a galáxia, e alguns ainda parecem não ter entendido que não podem roubar os pertences das outras pessoas mesmo que eles achem que querem mais do que a dona dos pertences. Eles são amigos uns dos outros, têm um saldo utilitário massivamente positivo, mas ainda não se livraram completamente de velhos hábitos.


Outro herói que tenta seguir a deontologia e fica ainda mais perigosamente perto de se tornar um anti-vilão é o Homem-Aranha no filme sem volta para casa, que estraga o feitiço do Dr. Estranho, solta vários vilões que foram parar em seu universo por sua culpa para salvá-los, e sua tia May é morta por um desses vilões. O que salva ele de ser um anti-vilão é a falta de confirmação deque outras pessoas morrem pelas mãos dos vilões.


Ele tenta ser um herói puro, e recebe outra lição dura de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Os riscos do que ele fez foram altíssimos, e colocou em risco a própria estabilidade do multiverso. Com isso, ele quase se tornou tão anti-vilão quanto o homem lagarto, o clássico arquétipo de cientista bem intencionado cujas invenções dão terrivelmente errado. Conclusão: O Homem Aranha de Tom Holland está perto da fronteira entre o herói e o anti-vilão, mas do lado do herói até que se prove que os vilões que ele libertou mataram mais de 5 pessoas (que foi o número de vilões salvos).

Glossário de Termos do Tribunal

Para este blog não ser apenas uma questão de opinião, usamos dois critérios científicos de análise:

UTILITARISMO (A Ética do Resultado): O que importa é o saldo final. A escolha correta é aquela que preserva o maior número de vidas e reduz o sofrimento global. É uma matemática da sobrevivência.

DEONTOLOGIA (A Ética das Regras): O que importa é a conduta. Avalia se o personagem seguiu regras morais (como não matar ou ser leal), independentemente se o resultado foi bom ou ruim.

Como classificamos:

Anti-Herói: Tem um saldo de vidas positivo, mas usa métodos e/ou tem intenções que quebram as regras morais.

Anti-Vilão: Tem intenções "boas" ou segue regras morais, mas o resultado final de suas ações é um saldo de mortes ou sofrimento negativo.

Vilão: Saldo de vidas negativo , intenções más, métodos ruins

Herói: Saldo de vidas positivo , intenções boas, métodos bons

Um comentário:

  1. Gostei demais! Análise bastante inteligente!! Continue assim!

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Leia antes: Critérios do Tribunal

Abigail, a vampira bailarina.