O Rei Leão: Análise do Pior Sistema Político Já Criado

O Rei Leão marcou a infância de toda uma geração. Quem não se lembra da música impactante e da cena marcante onde os animais da savana se curvam para o rei Mufasa e para seu novo herdeiro? Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela um reino bem mais sombrio. Vou considerar aqui apenas os dois primeiros filmes animados, e não as animações mais realistas, nem A Guarda do Leão, nem os curtas de Timão e Pumba, pois elas contradizem umas às outras e aos primeiros filmes.

AS PRESAS SÃO OS PLEBEUS, AS CARNES SÃO OS IMPOSTOS

Os leões são a família real de um reino em que a maioria da população é de presas. E ao contrário do que acontece em Zootopia, os carnívoros não encontram uma fonte alternativa de alimento. Uma das primeiras lições que Mufasa ensina a Simba é que eles respeitam todas as criaturas do reino, até mesmo os antílopes. Quando Simba questiona, dizendo que eles comem antílopes, Mufasa diz que quando eles morrerem, virarão grama, e antílopes comem grama. Mas isso não é respeitar os antílopes.

O leão pode viver 20 anos comendo centenas de antílopes durante sua vida. Não estou aqui defendendo vegetarianismo, mas se os animais cantam, dançam e se curvam ao rei, então nesse universo eles são pessoas. Ironicamente, os gnus, que são uma espécie de antílope, têm uma grande participação na morte de Mufasa. Mas isso é tratado tanto por Mufasa quanto por Simba e pelos criadores do filme como algo terrível, não como mais uma etapa do ciclo da vida.

O MENOR DE DOIS MALES

Dois fatores tornam plausível a cena em que animais que são presas para leões comemorem o nascimento de um leão: amigos do rei são declarados membros da corte real não comestíveis, e Mufasa mantém as hienas fora do reino. Quando Scar assume o poder, ele convida as hienas para o reino. As leoas detestam a ideia. E certamente o aumento de animais carnívoros, que antes se alimentavam de carcaças e ossos de elefante, mas que agora têm acesso a mais presas vivas, significa a morte de milhares de “plebeus “ do reino.

HAKUNA MATATA É A RESPOSTA!

Timão e Pumba resgatam Simba e ficam visivelmente incomodados quando ele diz que quer comer outros mamíferos, que são falantes nesse universo. Eles o ensinam a comer insetos, que não falam e nem parecem ter consciência. Simba cresce e fica adulto comendo insetos, o que significa que há uma alternativa mais ética para a alimentação de leões nessa realidade.Os criadores do filme tratam o modo de vida de Timão e Pumba como uma fuga da realidade e a volta de Simba ao reino como a decisão de assumir a responsabilidade. Mas o modo de vida com Timão e Pumba era muito mais ético.

NÃO HÁ COMIDA NEM ÁGUA!

A principal reclamação de Nala e das outras leoas é que Scar deixa as hienas mandarem em tudo e que não há comida nem água. A “comida” são os plebeus. Ninguém se importa com os plebeus que morreram caçados pelas hienas ou de sede. As leoas atribuem esses problemas a Scar, mas leões e hienas não causam seca. Se a falta de “comida” fosse culpa de Scar e das hienas, haveria vegetação abundante devido à falta de herbívoros para comê-la. A única explicação possível para a crise ambiental do reino é a seca.

O REI SORTUDO

Simba assume a pedra do rei debaixo de chuva, a seca acaba, as hienas e as leoas apoiadoras de Scar são expulsas. O reino volta a ser verde e cheio de súditos para serem comidos, e Simba e Nala têm uma filha.
O MELHOR REI PARA OS PLEBEUS

Simba foi o melhor rei para o povo da savana, não por se importar mais com eles, mas por ser o mais intolerante com outros carnívoros. As presas são a maior parte da população, e para o utilitarismo, não importa que elas sejam figurantes, elas têm mais peso no cálculo utilitário. Ironicamente, Scar é o pior rei não por matar Mufasa e tentar matar Simba, mas por ser o mais tolerante com outros carnívoros. Scar convidou as hienas para o reino e aceita o bando de Zira. Ele não as exila apesar de estarem insatisfeitas com ele. Sim, ele bate em Sarabi, mas alguém seriamente acha que a Zira foi exilada sem lutar? Mas quando Scar é derrotado, as hienas o devoram vivo. O fato de Scar dizer para Simba que elas eram inimigas não é motivo para isso. Ele ataca Simba depois, então ele não tinha mudado de lado.

ROMEU E JULIETA?

No segundo filme, vemos que havia um grupo de leoas leais a Scar, e que Scar inclusive adotou o filhote de uma delas. Essas leoas são exiladas do reino e vivem em um local árido e com poucas presas. Elas passam fome e querem voltar para o reino de Simba. Kiara se apaixona por Kovu, um dos filhotes de Zira. Kovu dá aulas de caça para Kiara, e só não mata Timão porque ele é amigo da família de Simba. Certamente, Kovu não confundiu o barulho de um suricato na grama com o barulho de um inseto, o que mostra que Simba, apesar de sobreviver por anos e ficar adulto comendo insetos, não acabou com a matança de mamíferos em seu reino. Naquele momento, aquilo era uma escolha, não uma necessidade.

A VOZ DO POVO!

Um dos únicos momentos em que ouvimos a voz dos plebeus da savana é durante a música “não é uma de nós”, quando Kovu estava sendo expulso do reino. A música é cantada principalmente por uma zebra e por um antílope, e muitos animais participam da expulsão de Kovu. As aves bicam, os macacos jogam pedras, cobras tentam picar e antílopes tentar chifrar. Mas os criadores do filme querem que você se importe com Kovu e Kiara, não com as centenas de plebeus inocentes que teriam que morrer para alimentar mais um leão. Por isso, “câmera” do filme foca nas expressões de sofrimento de Kovu e Kiara.

UMA TRAGÉDIA PARA O POVO!

Kiara e Kovu conseguem unir os dois bandos, e dobram o número de leões em um ecossistema em equilíbrio. Antes, os leões do exílio claramente passavam fome. Leões mais bem alimentados significam mais presas mortas. A grama é abundante e não há sinais de que os herbívoros precisem de controle populacional adicional. Os criadores querem que você acredite que esse final é feliz, e a música de fundo é calma e alegre. Mas o dobro de leões significam o dobro de mortes entre as presas. A maioria dos plebeus ficam quietos observando as novas bocas carnívoras que eles vão ter que alimentar com sua própria carne, e com a carne de seus parentes e amigos. Kovu passa boa parte do filme dizendo que ele não é igual ao Scar, mas para a maioria da população do reino, ele é exatamente isso, pois aumenta a quantidade de carnívoros no reino.

⚖️ VEREDITO: Mufasa e Simba

DEONTOLOGIA (Conduta): Falha ética grave ao sustentar um sistema onde a elite devora seus próprios súditos falantes. Seguem o "Ciclo da Vida" para justificar o consumo da plebe.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): POSITIVO (RELATIVO). Embora matem presas, eles mantêm um número menor de carnívoros no reino. Comparados ao governo de Scar, que permitiu uma matança desenfreada ao incluir as hienas, Simba e Mufasa garantem um saldo de sobrevivência maior para a população geral.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-HERÓIS


⚖️ VEREDITO: As Hienas

DEONTOLOGIA (Conduta/Lealdade): Apresentam uma ausência total de princípios éticos ou lealdade. Seguem Scar apenas pelo acesso fácil à comida e o devoram vivo no momento em que ele perde o poder. Não possuem o senso de honra ou dever que os leões (mesmo os exilados) demonstram.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): MASSIVAMENTE NEGATIVO. São predadores oportunistas que, ao serem inseridos no reino, causaram um desequilíbrio populacional e o aumento desenfreado da matança das presas. Não produzem ordem, apenas consumo.

CLASSIFICAÇÃO: VILÕES PUROS

⚖️ VEREDITO: Scar

DEONTOLOGIA (Intenção/Conduta): Apresenta uma contradição ética profunda. Possui pontos positivos ao demonstrar inclusão social (aceitar as hienas) e lealdade grupal (acolher o bando de Zira e adotar Kovu). Contudo, comete a falha deontológica máxima ao assassinar o próprio irmão para tomar o poder.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO. Sua gestão foi desastrosa. Ao permitir o excesso de predadores no reino, ele elevou a taxa de mortalidade das presas a níveis insustentáveis. Sua falha não foi a seca, mas a incapacidade de gerir os recursos (plebeus), resultando em fome e matança desenfreada.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO INCOMPETENTE

⚖️ VEREDITO: Timão e Pumba

DEONTOLOGIA (Conduta): Seguem a filosofia "Hakuna Matata" (viver sem preocupações). Resgatam um predador e o ensinam a não matar outros mamíferos.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): POSITIVO. Ao converterem Simba para uma dieta de insetos, eles salvaram centenas de vidas de presas que teriam sido devoradas durante o crescimento do leão. São os únicos agentes moralmente consistentes da obra.

CLASSIFICAÇÃO: HERÓIS UTILITARISTAS (REAIS)

⚖️ VEREDITO: Kiara e Kovu

DEONTOLOGIA (Intenção): Buscam a paz e a união entre as alcateias, superando preconceitos de grupo. Kiara demonstra virtude ao impedir o massacre final entre as leoas.

UTILITARISMO (Saldo de Vidas): NEGATIVO PARA O ECOSSISTEMA. Embora evitem uma guerra imediata, a união dos bandos dobra a população de leões no Reino do Orgulho. O final "feliz" do filme é, na verdade, uma sentença de morte acelerada para centenas de zebras e antílopes adicionais.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÕES POR CONSEQUÊNCIA

2 comentários:

  1. Nooossa! Gostei demais! Nunca tinha pensado dessa forma em relação ao papel de cada membro da história e o quanto é absurdo esses relacionamentos e sentimentos.

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  2. Sim, as pessoas se deixam levar pelo que o enquadramento narrativo, ou seja, pelo que o autor quer que elas sintam. Por isso é importante fazer análises desmontando o enquadramento narrativo!

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