Abigail, a vampira bailarina.


ABIGAIL

Todas as suas vítimas comprovadas são criminosas, porém trabalha para o pai, que é um grande chefe do crime. Na mansão onde a maior parte do filme se passa há uma piscina cheia de cadáveres, e não se sabe se aqueles corpos eram de criminosos ou não. Ela se diverte aterrorizando suas vítimas, o que é ruim tanto do ponto de vista da deontologia quanto do ponto de vista do utilitarismo. Após se aliar a Zoey para matar Frank, demonstra ter certos valores deontológicos, poupa a vida de Zoey e pede ao pai que a deixe ir embora, mesmo ela sendo uma testemunha do esquema criminoso deles.

Abigail é uma anti-vilã com bem menos deontologia do que Sasha, vampira do post anterior também classificada como anti-vilã. Sasha tenta o máximo possível fazer com que suas vítimas fiquem confortáveis antes de morrer. Abigail tenta aterrorizá-las o máximo possível. Seus alvos são criminosos não porque ela quer reduzir a criminalidade em geral, mas porque aqueles criminosos prejudicaram o pai dela de alguma forma.

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OS OUTROS SEQUESTRADORES

Eles cooperam entre si durante o sequestro e depois que percebem que Abigail é uma ameaça, mas qualquer um que tenha um mínimo de inteligência se une contra um inimigo comum. Não é preciso ter valores deontológicos para isso. Os outros sequestradores também são hostis com Abigail, mesmo quando pensam que ela é apenas uma menina. Para a deontologia, a intensão pode importar mais do que o resultado final. Para todas as vertentes do utilitarismo, eles têm saldo utilitário negativo.

Kristof Lazaar

Concorda em poupar Zoey após Abigail pedir, mesmo ela sendo uma testemunha do esquema criminoso deles. Mas ainda é um chefe criminoso com saldo utilitário massivamente negativo.

Lambert

Transformado em vampiro por Abigail, participa do esquema para sequestra-la. Transforma Frank em vampiro para derrubar Lazaar e Abigail para controlar o império criminoso deles. Mas é morto por Frank logo em seguida. Vilão puro.

📊 VEREDITO: ABIGAIL

Deontologia: Baixa. Diverte-se com o terror alheio, mas demonstra gratidão ao poupar Zoey.
Saldo Utilitário: Massivamente Negativo (Piscina de cadáveres e proteção ao império do crime).
Classificação: ANTI-VILÃ (Menos ética que Sasha, pois prioriza o sadismo sobre o conforto das vítimas).

📊 VEREDITO: SEQUESTRADORES

Deontologia: Nula. Cooperam apenas por medo e foram hostis com quem julgavam ser uma criança.
Saldo Utilitário: Negativo Absoluto (Causaram terror por ganância pura).
Classificação: VILÕES PUROS (Sem agência moral, apenas instinto de sobrevivência).

📊 VEREDITO: ZOEY

Deontologia: Comprometida. Embora tente proteger a menina depois, aceitou participar do sequestro de uma criança, o que é uma falha moral grave.
Saldo Utilitário: Negativo. O erro de negligência no passado somado à participação no crime atual mantém seu saldo no vermelho.
Classificação: ANTI-VILÃ EM DÉBITO (Possui lampejos de ética, mas é cúmplice de um crime hediondo).

📊 VEREDITO: KRISTOFF LAZAAR

Deontologia: Baixa, mas presente. Sua disposição em poupar Zoey por um pedido da filha revela que ele ainda valoriza laços humanos acima da conveniência criminosa.
Saldo Utilitário: Massivamente Negativo. É o arquiteto de um império de dor, mortes e crimes sistêmicos.
Classificação: ANTI-VILÃO (Um monstro com um código de honra familiar que o impede de ser um vilão puramente niilista).

📚 Glossário do Tribunal

Deontologia: É a ética do dever e da intenção. Uma ação é julgada como certa ou errada com base em princípios morais fixos (como "não sequestrar crianças"), independentemente das consequências finais. Se a intenção é boa e segue a regra, a ação tem valor positivo.

Utilitarismo: É a ética dos resultados e do saldo. O que importa é a soma final de bem-estar versus sofrimento. Se uma ação resulta em mais dor do que prazer para o maior número de pessoas, o saldo é negativo, não importa quão "boa" tenha sido a intenção inicial.

O QUÃO AMIGÁVEL PODE SER UM VAMPIRO?


Historicamente, vampiros são mortos vivos temidos que se alimentam de sangue humano. Recentemente, entretanto, há a tendência de se retratar vampiros como pessoas com necessidades peculiares, e não somente como monstros sedentos por sangue.

CREPÚSCULO

Quando falamos de vampiros “bonzinhos”, grande parte das pessoas logo se lembra de Edward Cullen da saga Crepúsculo. Edward se apaixona por uma humana e luta para protege-la de outros vampiros. Apesar de frequentemente dizer que ele é um monstro, e tentar convencer Bella a não querer ser transformada em vampira, o universo de Crepúsculo é um dos melhores para ser um vampiro amigo dos humanos. Na verdade, transformar uma pessoa em vampiro nesse universo significa adicionar séculos de vida à pessoa.

MORTOS?

Não importa que os chamem de mortos vivos, nem que o coração deles não bata, eles podem ter vidas praticamente normais. Eles não queimam no sol, apenas brilham, não envelhecem, não ficam doentes. Se alimentam de sangue, mas esse sangue não precisa ser humano. E com exceção dos lobisomens, animais não são pessoas nesse universo.

CAÇADORES OBRIGATÓRIOS

Matar animais comuns não é um ato neutro do ponto de vista do utilitarismo, mas a maioria dos utilitaristas concorda que é bem menos negativo do que matar pessoas. E se matar um cervo traz um saldo negativo, então animais carnívoros têm saldo utilitário obrigatoriamente negativo. Assim, se uma família de vampiros mata uma família de pumas e passa a caçar a mesma quantidade de cervos, o saldo utilitário alimentar deles fica próximo do neutro e eles apenas substituem os pumas no topo da cadeia alimentar. O único bom motivo para não transformar pessoas em vampiros é a necessidade de manter a população de animais sustentável.

JUSTICEIRO

Edward também matou criminosos quando era recém transformado. Ele também tem o poder de ler mentes, então sabia quando um criminoso estava pensando em cometer um crime. Era a essas pessoas que ele estava se referindo quando disse para a Bella que já matou pessoas. A própria Bella disse que Edward provavelmente salvou mais pessoas do que matou quando ele diz isso a ela. Entretanto, o saldo utilitário do Edward é mais local. Kira impedia crimes majoritariamente por dissuasão, Edward impedia crimes pela eliminação física do criminoso.

👉 VEJA TAMBÉM: Kira é um anti-herói? A matemática dos 70% de redução criminal.


A VAMPIRA “HUMANISTA”

Entretanto, nem todo vampiro tem a sorte de Edward. Alerta de spoiler!


O filme completo está disponível na Netflix!

No filme “Vampira humanista procura voluntário suicida ” a vampira Sasha tem empatia pelos humanos, mas precisa obrigatoriamente consumir sangue humano. Se não matar o humano, ele se transforma em vampiro, por isso os vampiros têm que matar suas vítimas. Também há uma regra que obriga o vampiro a matar qualquer pessoa que saiba que ele é vampiro.

Se as regras do universo de Sasha se aplicassem ao Edward, é provável que ele continuasse matando criminosos. Ou talvez morresse de fome se achando um monstro. Mas acho que a história de Crepúsculo seria mais interessante se ele ainda matasse criminosos quando conheceu Bella.

HIPÓCRITA?

Sasha consome bolsas de sangue, mas essas bolsas de sangue são de humanos caçados pela sua família. Se a familia de Sasha precisava alimentá-la, eles também tinham que caçar com mais frequência por causa dela. Então para Sasha o problema não era a matança de humanos em si, mas sim os sentimentos que ver humanos apavorados e morrendo na frente dela geram nela. Então ela não é humanista, mas sim egoísta.

Um dia os pais dela a mandam morar com uma prima para aprender a caçar pessoas. Ela encontra um adolescente prestes a cometer suicídio, e inicialmente pensa em caçá-lo, mas depois acaba se apaixonando pelo rapaz. E o transforma em vampiro.

CONSUMIDORA VORAZ

O universo desse filme é um dos piores para ser um vampiro. Sasha consome bolsas de sangue com frequência, então seus pais precisam caçar com frequência. O saldo utilitário de se criar um novo vampiro nesse universo é extremamente negativo. Se Sasha consome 3 bolsas de sangue por dia e cada uma tem 500ml, então todo o sangue de um humano que viveria mais 70 anos adicionaria apenas cerca de 4 dias à vida de Sasha.

A solução sugerida no título do filme é extremamente problemática, pois pessoas que pensam em suicídio geralmente só pensam nisso porque estão deprimidas e não veem solução para seus problemas. Essas pessoas precisam de ajuda para encontrar outra solução, não para morrer. Elas não estão em plenas faculdades mentais.

MULTIPLICADORA DE PREDADORES

Sasha foi responsável pela criação de 2 vampiros no filme. Um homem que a prima dela tenta caçar e ela dispara o alarme do carro, obrigando a prima a fugir, e Paul, por quem se apaixona e transforma intencionalmente em vampiro. Os pais dela até comentam que eles não podem adotar um novo parente toda vez que Sasha resolver fazer um lanche. O saldo utilitário de Sasha acaba sendo pior do que o do resto da família dela. No fim do filme, Sasha e Paul aparecem no hospital e drenam o sangue de uma mulher doente que já estava pronta para morrer.

O SALDO UTILITÁRIO

Se os dois conseguissem se alimentar apenas de pessoas doentes e sofrendo que quisessem uma eutanásia, o saldo utilitário deles poderia ser positivo no utilitarismo de preferência (se a vítima estiver em plenas faculdades mentais, sofrendo muito, realmente preferir morrer, e não houver outras opções para aliviar esse sofrimento), e no utilitarismo negativo (que avalia a quantidade de sofrimento evitado), e talvez no utilitarismo ponderado por anos de vida. Mas nesse caso teria que ser um utilitarismo ponderado por dias de vida. Para ter saldo positivo nessa vertente, eles teriam que se alimentar somente de pessoas que tivessem menos de 4 dias de vida.

Portanto, a vertente do utilitarismo em que seria mais fácil pa Sasha e Paul terem um saldo utilitário positivo é o utilitarismo negativo. Entretanto, essa é uma das vertentes mais controversas do utilitarismo. Thanos usa uma ideia distorcida dessa vertente para reduzir o sofrimento do universo. É também a única vertente que favorece Deadpool contra Francis.

👉 VEJA TAMBÉM: Deadpool vs. Francis: Onde o Utilitarismo Negativo é a única defesa do "Herói".


ESCOLHA RARA

Mas eutanásia é uma escolha rara. O Canadá, país desse filme, tem o maior número de casos de eutanásia legalizada do mundo, mas são 36 casos por dia espalhados pelo país inteiro. O Canadá tem cerca de 800 hospitais. O acesso dos vampiros a doentes que querem eutanásia depende da mãe do Paul, que trabalha em um hospital.

ESTATISTICAMENTE IMPOSSÍVEL

A probabilidade de que todos os dias um desses pacientes que realmente querem eutanásia apareça exatamente no hospital onde a mãe de Paul trabalha é extremamnte pequena. Estatisticamente, aparece um paciente que deseja eutanásia em cada hospital a cada 22 dias! Então o mais provável é que eles se alimentem principalmente de pessoas deprimidas. Ou então a mãe de Paul poderia simplesmente assumir que alguns pacientes muito doentes preferem morrer e avisar ao filho e à namoradinha dele que está na hora do lanche.

UTILITARISMO DE REGRAS

Para o utilitarismo de regras, o saldo utilitário deles é negativo, pois se as pessoas suspeitarem que vampiros estão caçando pacientes no hospital, vão ter medo de levar seus parentes para lá. A lógica é a mesma que proíbe a coleta de órgãos de pacientes mortos sem autorização da família: evitar que alguém mate um paciente para favorecer outra pessoa.

👉 VEJA TAMBÉM: Law & Order SVU: Como a lei sacrifica anos de vida por burocracia.



CONFLITO DE INTERESSES

A legalidade da eutanásia no Canadá na vida real é criticada por muitos, mas existe um processo rigoroso para evitar que alguém que tenha interesse na morte dos pacientes se aproveite dessa lei. Os pacientes têm que ser avaliados independentemente por médicos que não tenham interesse na morte do paciente, e têm que estar em plenas capacidades mentais. A mãe de Paul tem interesse em alimentar o filho, então ela estaria imediatamente desqualificada para decidir quem realmente quer morrer.

Sasha também ataca e mata um cara que estava batendo no Paul. Não se pode afirmar com certeza que o rapaz mataria Paul se Sasha não o atacasse. Mas, ironicamente, se matasse Paul, o agressor teria saldo utilitário positivo acidentalmente, pois Sasha não o transformaria em vampiro. E nesse universo, é extremamente difícil que vampiros tenham saldo utilitário positivo.

LOBO EM PELE DE CORDEIRO

Quando estava tentando convencer Sasha a transformar ele, Paul diz que tem muitos grupos de apoio para suicidas por aí, e ele poderia inclusive caçar para ela! Isso é eticamente monstruoso! Um grupo de apoio para suicidas tem a função de apoiar pessoas que pensam em suicídio para que elas NÃO cometam suicídio e encontrem outras formas de resolver seus problemas. Ele diz que seria um “vampiro humanista criativo”, mas isso não é ser um vampiro humanista, mas sim um vampiro que se aproveita da fragilidade de pessoas com agência moral comprometida.

COMPARAÇÃO COM OUTROS PERSONAGENS

Eles são claramente piores do que a médica de Law and order, mas melhores que os leões de o Rei Leão, que literalmente podem comer qualquer um que não seja um leão nem amigo deles. Nala, por exemplo, tentou comer o Pumba, um javali jovem e saudável que claramente não queria morrer. Lembre-se que em “O Rei Leão”, os animais mamíferos são pessoas. E assim como Kiara, a empatia de Sasha se limita a quem está na frente dela. Ambas aumentam o número de predadores, o que é péssimo para as presas.

👉 VEJA TAMBÉM: O Rei Leão: A empatia seletiva e o colapso do ecossistema.

⚖️ GALERIA DE VEREDITOS: VAMPIROS

EDWARD CULLEN: HERÓI (GESTOR DE SALDO). Veredito: Ao substituir predadores naturais e usar telepatia para eliminar ameaças reais, ele gera um superávit de existência consciente. No universo de Crepúsculo, ele é um acumulador de vida eficiente.
SASHA E PAUL: ANTI-VILÕES (PARASITAS ÉTICOS). Veredito: A predação seletiva de vulneráveis e a impossibilidade estatística da eutanásia hospitalar tornam o "humanismo" do casal uma falácia. Eles expandem a predação humana para satisfazer um egoísmo afetivo.

Deadpool filme 1: Porque piadas nos fazem ignorar a matança - e até gostar?


Deadpool é considerado um anti-herói por muitos. Mas aqui nesse tribunal, para ser considerado um anti-herói é preciso ter um saldo utilitário positivo. Será que Deadpool preenche esse critério no primeiro filme?

Antes de qualquer análise mais profunda, já é possível concluir que Deadpool não é um herói puro. Ele mata dezenas de pessoas durante o filme, mesmo quando Colossus tenta impedi-lo. E não importa quantas piadas ele faça, cada morte pesa no saldo utilitário dele. Mas ele também não é um vilão puro, pois tem o desejo de salvar Vanessa de Francis na luta final. Portanto, anti-herói e anti-vilão são as únicas categorias possíveis para o protagonista.

MOTIVAÇÕES

Deadpool mata dezenas de pessoas para encontrar Francis. Mas ao menos inicialmente, Francis não estava ameaçando a vida de Vanessa. A motivação de Deadpool é encontrar Francis para que ele o deixe bonito novamente para Vanessa. Basicamente, ele está matando pessoas por uma cirurgia plástica. Francis já o havia curado do câncer. Sim, Francis causou dor a ele desnecessariamente durante o procedimento, mas ainda assim, o curou de um câncer terminal.

FRANCIS

Francis com certeza não é um herói puro. Ele recruta pessoas com doenças terminais para transformá-las em mutantes e vende-las como soldados. A maior parte dessas pessoas morre, apenas uma minoria (como Deadpool) sobrevive. E como ocorre com Deadpool, Francis causa dor desnecessariamente aos pacientes. Francis e Deadpool estão conectados de uma forma que o saldo utilitário de um depende do saldo utilitário do outro. O problema é que assim como ocorre no post anterior, de Law and Order diferentes vertentes do utilitarismo entram em conflito a respeito do saldo utilitário de Francis.

UTILITARISMO CLÁSSICO

O utilitarismo clássico analisaria a quantidade de pessoas salvas e a quantidade de pessoas que tiveram o experimento de Francis como causa de morte mais imediata. A quantidade de pessoas que morrem no experimento de Francis é maior do que o número de pessoas curadas e transformadas em mutantes. Portanto, Francis tem saldo utilitário negativo nessa vertente.

UTILITARISMO PONDERADO PELOS ANOS DE VIDA

Mas o utilitarismo ponderado pelos anos de vida em potencial consideraria que o experimento de Francis tem saldo utilitário positivo, pois os anos de vida ganhos pelos sobreviventes pesam mais do que os meses ou semanas perdidos pelos doentes terminais que morreram. Na vida real, pacientes terminais de câncer frequentemente aceitam participar de tratamentos experimentais dolorosos para terem a chance de cura, mesmo que esses tratamentos possam mata-las mais cedo do que a própria doença. Já vimos essa vertente no post anterior!

👉 VEJA TAMBÉM: Law & Order SVU: Como a lei sacrifica anos de vida por burocracia.


UTILITARISMO DE PREFERÊNCIAS

O utilitarismo de preferências avalia que as opções daqueles pacientes terminais eram muito ruins, mas participar do experimento de Francis era a opção menos ruim. A possibilidade de cura fazia com que muitos pacientes preferissem o experimento, por mais doloroso que fosse e apesar da chance de serem vendidos como soldados. Escravos vivos podem fugir, mas mortos “livres” não podem ressuscitar. O saldo utilitário de Francis é positivo nessa vertente, pois a oferta dele era “melhor” do que simplesmente esperar para morrer de câncer lentamente.

UTILITARISMO NEGATIVO

Para essa vertente do utilitarismo, evitar a dor é mais importante do que prolongar a vida. Portanto, o saldo utilitário de Francis é negativo para essa vertente, pois ele causa dor extrema em suas cobaias humanas.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA DEADPOOL?

Se Francis, isoladamente, tem saldo utilitário positivo em algumas vertentes do utilitarismo, e o objetivo de Deadpool no primeiro filme é encontrar Francis para que ele conserte seu rosto e depois se vingar dele, Deadpool tem saldo utilitário negativo nessas mesmas vertentes. Mesmo nas vertentes em que Francis tem saldo utilitário negativo, esse saldo não é negativo o suficiente para que Deadpool tenha saldo positivo. A quantidade de pessoas que vemos Deadpool matando é superior à quantidade de pessoas que vemos Francis fazendo de cobaia.

Ironicamente, quem puxa o saldo utilitário do Francis para baixo no primeiro filme é o próprio Deadpool. Sem o experimento de Francis, Deadpool simplesmente morreria de câncer e todo mundo que Deadpool transforma em espetinho de carne estaria vivo. Classicamente, o saldo utilitário da criatura de um cientista entra na conta do criador, como já vimos no post “O Arquétipo do Cientista Bem-Intencionado e Descuidado”

👉 VEJA TAMBÉM: O arquétipo do cientista anti-vilão: Da negligência à criação de monstros.


Mas Francis não é exatamente bem-intencionado. A única coisa que faz com que Francis seja um anti-vilão, e não vilão puro é o fato de ele pelo menos tentar ter um saldo utilitário positivo e usar doentes terminais que poderiam se beneficiar do experimento. Assim, Francis está em uma área de tríplice fronteira entre o anti-herói, o anti-vilão e o vilão puro. Nem mesmo Light Yagami( Kira), que provoca muitas discussões a respeito de sua classificação como anti-herói, anti-vilão e vilão, é tão fronteiriço assim.

👉 VEJA TAMBÉM: Kira é um anti-herói? A matemática dos 70% de redução criminal.


No primeiro filme, Deadpool também é anti-vilão, pois tem saldo utilitário negativo em todas as vertentes, apesar de ter algumas características deontológicas positivas, como o desejo de salvar sua namorada, Vanessa. Mas se o saldo utilitário dele melhorar nas continuações do filme, ele não só pode migrar para a categoria de anti-herói, como também arrasta Francis para a categoria de anti-herói, mesmo que ele o tenha matado no primeiro filme.

UM HÉROI PURO?

O mutante metálico Colossus é o verdadeiro herói do primeiro filme. Ele é contra a matança de Deadpool, ajuda Deadpool a salvar Vanessa na batalha final, e até tenta convencer Deadpool a poupar a vida de Francis. Afinal, Francis ainda era um cientista que tinha curado um câncer! O tratamento era doloroso, mas infelizmente, todo tratamento de câncer é doloroso. Ele poderia ser preso e convencido a passar seus conhecimentos para outros, por exemplo. Mas Deadpool mata Francis por pura vingança depois que ele já tinha sido derrotado.

Muitas pessoas pensam que o personagem mais politicamente incorreto é o que mais é apoiado pelo utilitarismo, mas isso não é verdade. Nesse filme, o personagem “certinho chato” é também o com saldo utilitário mais positivo. Ele só ajuda a salvar uma pessoa, mas seus “concorrentes” têm saldo utilitário negativo.

⚖️ VEREDITO: Colosso (Piotr Rasputin)

DEONTOLOGIA: Nota máxima (100/100). Demonstra autolimitação absoluta ao recusar o uso de força letal, mesmo possuindo poder físico superior. Tenta impedir as matanças de Deadpool.

UTILITARISMO: POSITIVO. Ajuda a salvar Vanessa. Ao tentar poupar Francis, visava preservar o conhecimento da cura do câncer para a humanidade.

CLASSIFICAÇÃO: HERÓI PURO

⚖️ VEREDITO: Francis Freeman (Ajax)

DEONTOLOGIA: Quase nula (01/100). Quebra quase todas as regras: tortura, sequestro e total ausência de empatia. Sua única "regra" é o critério de cobaias terminais, possivelmente por conveniência logística.

UTILITARISMO: Divide vertentes se descontarmos as ações de Deadpool. Positivo em Anos de Vida (gera séculos para quem tinha meses); Negativo em Utilitarismo Negativo (geração de dor extrema);Positivo no utilitarismo de preferências(doentes terminais preferem tentar o tratamento experimental e doloroso);e Negativo por Causalidade (responsável pela criação do agente de caos Deadpool).

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (CIENTISTA BÉLICO)

⚖️ VEREDITO: Wade Wilson (Deadpool)

DEONTOLOGIA: Baixa. Age por vingança e retribuição pessoal, ignorando leis e códigos morais. Sua "bondade" é seletiva e restrita ao seu círculo afetivo imediato.

UTILITARISMO: MASSIVAMENTE NEGATIVO. Consome dezenas de vidas saudáveis e destrói infraestrutura médica para satisfazer um egoísmo estético. Ao matar Francis, ele "apaga" a única fonte da cura que o salvou, privando outros pacientes terminais da mesma chance.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÃO (VÍTIMA REATIVA)

LAW AND ORDER:SVU- Episódio 16 da 19ª Temporada


A questão da doação de órgãos põe em conflito diversas vertentes do utilitarismo, mas poucas histórias evidenciam tão bem os perigos de se seguir ordens ao pé-da-letra como esse episódio de Law and Order. Nele, uma médica retira o coração de uma garota morta sem autorização dos pais para transplantar para um menino com doença cardíaca grave.

Os pais da garota descobrem e denunciam médica por roubo de órgãos. Os policiais impedem o coração já retirado de ser transplantado para o garoto, a médica é processada, e o garoto morre no fim do episódio. O saldo utilitário das ações dos policiais é claramente negativo: duas crianças mortas em vez de uma.

O utilitarismo clássico apoiaria que a doação de órgãos de cadáveres fosse compulsória. Entretanto, alguns utilitaristas de regras argumentam que se a doação de órgãos for compulsória poderia haver casos de assassinato para retirada de órgãos. O utilitarismo balanceado por anos de vida potenciais considera que pacientes transplantados costumam ter expectativa de vida menor do que pacientes saudáveis, podem morrer durante a cirurgia de transplante, e têm que tomar imunossupressores pelo resto da vida.

Para essas duas últimas vertentes do utilitarismo, os anos de vida salvos dos transplantados podem não compensar os potenciais anos de vida perdidos de pessoas saudáveis que poderiam ser assassinadas para retirada de órgãos. Entretanto, no momento em que os policiais impediram o coração de ser transplantado para o menino, o tipo de situação que o utilitarismo de regras e o utilitarismo balanceado por anos de vida potenciais visam coibir já teria sido consumada: a garota já estava morta, e o coração dela já havia sido retirado.

A atitude mais utilitária que os policiais poderiam ter seria permitir o transplante e deter a médica. Assim, caso a médica tivesse deixado a garota morrer para retirar o coração, por exemplo, ela estaria sendo punida, mas a vida do garoto receptor seria salva. Impedir o transplante naquela situação foi tirar de uma criança inocente a chance de viver.

No episódio em questão, não havia indícios de que a médica tenha propositalmente deixado crianças morrerem para retirar os órgãos. Mas quase certamente os policiais roubaram anos de vida do menino que seria o receptor do coração. Mais de 90% das crianças receptoras sobrevivem à cirurgia de transplante cardíaco, e a sobrevida média para crianças com mais de 10 anos é de cerca de 13 anos. Pode parecer pouco para uma criança, mas se o menino em questão fosse seu filho? Como você se sentiria nos próximos 13 anos sabendo que ele poderia estar vivo, mas não está?

Links para os artigos de referência usados neste texto:
https://jornal.usp.br/ciencias/transplantados-na-infancia-que-recebem-coracao-antes-de-um-ano-de-idade-vivem-mais/

⚖️ VEREDITO: Os Policiais e o Sistema Judiciário

DEONTOLOGIA (Conduta): Seguiram a regra legal e processual de forma dogmática. Priorizaram a "Cadeia de Custódia" e a integridade da prova criminal em detrimento de uma vida humana em estado de emergência.

UTILITARISMO (Saldo): NEGATIVO. Ao impedirem o transplante de um órgão já extraído, garantiram a morte de uma criança inocente. O "respeito à regra" não trouxe a pessoa falecida de volta, apenas somou um segundo óbito evitável ao saldo total.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-VILÕES (PUNITIVISTAS)

⚖️ VEREDITO: A Médica Responsável

DEONTOLOGIA (Conduta): Falha grave ao violar o protocolo médico legal e o consentimento familiar. Cometeu um ato tecnicamente criminoso sob a ótica da legislação vigente.

UTILITARISMO (Saldo): POSITIVO (TENTADO). Agiu para transformar uma perda irreversível em uma vida salva. No cálculo de existência, seu ato buscava evitar o saldo negativo de duas mortes, priorizando a sobrevivência do paciente receptor.

CLASSIFICAÇÃO: ANTI-HEROÍNA (BIOÉTICA)

Leia antes: Critérios do Tribunal

Abigail, a vampira bailarina.