Análise ética e classificação de personagens fictícios através do utilitarismo e da deontologia. O tribunal da lógica aplicado à moralidade na ficção.
Como classificamos personagens fictícios sob a luz das filosofias éticas?
Tanto na ficção quanto na vida real, não há uma divisão bem definida entre bons e maus. Entre o preto e o branco existem inúmeros tons de cinza. Portanto , os personagens fictícios se dividem não só em heróis e vilões, mas também em anti heróis e anti vilões. Mas onde está a linha que separa os heróis puros dos anti-heróis? E os anti-heróis dos anti-vilões? E os anti-vilões dos vilões puros?
Originalmente, um anti-herói era definido como um protagonista com falhas morais. Atualmente, usa-se o termo amplamente para personagens que não são protagonistas, mas fazem o bem por motivos egoístas ou por métodos maus.
Mas o que é "fazer o bem"?
Pode parecer algo óbvio para alguns, mas é um tema muito discutido em filosofia ética. Pela definição mais atual de anti-herói, uma descrição mais técnica de anti-herói seria : aquele cujas ações resultam em um saldo positivo em uma avaliação utilitarista. Em resumo, para se saber se o personagem é um anti-herói, calculamos quantas pessoas ( ou animais falantes) o personagem prejudicou e quantas eles beneficiou.
Regra de Ouro:Nesse blog, não fazemos distinção de valor entre figurantes, pessoas citadas, protagonistas. Todos têm o mesmo peso sob o ponto de vista do utilitarismo. Uma cena traumática de um protagonista morrendo tem o mesmo peso de um repórter na tv citando 1 pessoa morreu.
O marco zero dos anti-heróis
O Godzila, no filme Godzila de 2014, é um ótimo marco zero dos anti-heróis. Godzila é um lagarto gigante que só quer matar os mutos e ir dormir no fundo do mar.Ele não se importa com quantas pontes derruba e em quantas pessoas pisa para chegar aos mutos. Por acaso, os mutos também ameaçam a humanidade e são uma ameaça maior que o Godzila, pois são capazes de se reproduzir. Os humanos podem detonar bombas nucleares para destruir os ovos, mas não são capazes de matar o casal reprodutor. O Godzila é a melhor alternativa disponível nessa situação. O saldo utilitário das ações do Godzila é positivo, apesar da intenção nula de salvar a humanidade. O dilema ético tradicional do utilitarismo é o dilema do bonde. Nesse dilema, a pessoa tem que escolher desviar ou não um bonde desgovernado de um trilho com 5 pessoas para um trilho com apenas 1 pessoa. O Godzila não é uma pessoa que puxa a alavanca do bonde, mas um outro bonde que bate no primeiro e por acaso mata menos de 5 pessoas.
Anti-heróis x Heróis puros
Para separarmos os anti heróis dos heróis puros, precisamos analisar as características deontológicas do personagem. A deontologia avalia a intenção do personagem, e os atos em si , independente das consequências. Como o Godzila também mata muitas pessoas inocentes e só é benéfico para a sociedade por tem um inimigo comum, ele é um anti-herói sem nenhuma característica deontológica.
Utilitarismo x Deontologia
Na ficção e na filosofia moral, costuma ser vista como "rival" do utilitarismo, pois a situação em questão costuma ser incomum. Na vida real, atos condenáveis pela deontologia também costumam ser condenáveis pelo utilitarismo. Vilões e anti-vilões têm um saldo negativo em vidas e bem estar, ou seja , causam mais mortes e sofrimento do que salvam vidas e promovem bem estar. Mas os anti-vilões têm características deontológicas positivas, como intenção de fazer o bem para um grupo específico. O vilão puro é totalmente condenável tanto pela deontologia quanto pelo utilitarismo.
Resumo:
Utilitarismo: O foco é o resultado final. A escolha certa é a que salva o maior número de vidas.
Deontologia: O foco é a regra. Matar ou mentir é errado sempre, não importa o benefício final.
Herói: Atinge saldo utilitário positivo respeitando regras deontológicas. (O ideal).
Anti-Herói: Atinge saldo utilitário positivo violando regras deontológicas,mas não há opção melhor na trama. (A eficiência necessária).
Anti-Vilão: Possui intenções ou regras deontológicas "boas", mas seu saldo utilitário final é negativo. (O erro perigoso).
Vilão: Intenção egoísta e saldo utilitário negativo. (O caos absoluto).
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